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Nacional, Tempo e Clima

O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil?

Por Redação
Publicado em 31/10/2026
às 17:54
Chuvas em Juiz de Fora causaram cenários. © Rovena Rosa/Agência Brasil.

Fenômeno já está confirmado e pode atingir intensidade muito forte até o fim de 2026. Previsão indica temperaturas de até 2°C acima da média em grande parte do país e possibilidade de ondas de calor nos próximos meses.

O Brasil deve enfrentar meses de temperaturas mais altas do que o normal, com possibilidade de ondas de calor e mudanças na distribuição das chuvas. O cenário está relacionado ao fortalecimento do El Niño, fenômeno climático que já está confirmado e deve continuar atuando pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), existe 95% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026. Caso a previsão se confirme, poderá estar entre os episódios mais intensos registrados desde 1950.

A previsão climática mais recente, divulgada em 29 de outubro pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), indica que as temperaturas médias podem ficar entre 1°C e 2°C acima do normal em praticamente todo o território brasileiro entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Em algumas áreas do Pará, a diferença pode chegar a 3°C acima da média histórica.

Além do calor, o El Niño deve favorecer o aumento das chuvas na Região Sul e a redução das precipitações em partes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

El Niño já está confirmado e pode ser um dos mais intensos da história

Diferentemente das previsões feitas meses atrás, quando ainda havia dúvidas sobre a formação e a intensidade do fenômeno, agora o El Niño já está oficialmente configurado.

Segundo o INPE, as condições foram confirmadas em junho de 2026. Desde então, as águas do Oceano Pacífico Equatorial vêm apresentando aquecimento contínuo.

No final de setembro, as temperaturas da superfície do oceano estavam mais de 2°C acima da média em áreas centrais e orientais do Pacífico Equatorial.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) também identificou o fortalecimento do fenômeno. Em seu boletim de 8 de outubro, o órgão apontou que o aquecimento chegou a 2,1°C acima da média na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para monitorar o El Niño.

A NOAA estima que existe mais de 83% de probabilidade de o fenômeno permanecer forte ou muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.

Esse aquecimento modifica a circulação dos ventos e da atmosfera, alterando a formação de nuvens e a distribuição das chuvas em diferentes partes do planeta.

Na prática, isso significa que algumas regiões podem enfrentar períodos de seca, enquanto outras recebem volumes de chuva acima do normal.

O fenômeno também pode contribuir para temperaturas mais elevadas e ondas de calor.

É importante lembrar que o El Niño não provoca os mesmos efeitos em todos os lugares. A intensidade das consequências depende da região, da época do ano e das condições climáticas que já estão presentes.

Quais são os efeitos do El Niño em cada região do Brasil?

Sudeste: temperaturas elevadas e possibilidade de ondas de calor

Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo estão entre os estados que devem enfrentar temperaturas acima da média nos próximos meses.

A previsão indica que o calor poderá ficar entre 1°C e 2°C acima dos valores históricos em grande parte do país.

Outro fator de preocupação é a possibilidade de bloqueios atmosféricos. Esses sistemas acontecem quando áreas de alta pressão dificultam o deslocamento de frentes frias e outros sistemas meteorológicos. Com isso, o calor pode permanecer por vários dias, favorecendo a ocorrência de ondas de calor.

No Sudeste, a distribuição das chuvas também merece atenção. O comportamento das precipitações pode variar de uma área para outra, e não significa que toda a região enfrentará seca.

Para Juiz de Fora e outras cidades da Zona da Mata mineira, isso significa que é importante acompanhar as previsões específicas para cada município. A tendência de temperaturas mais altas em escala regional não permite determinar, sozinha, como será o volume de chuva na cidade.

Sul: mais chuvas e risco de enchentes

A Região Sul deve ser uma das mais afetadas pelo aumento das precipitações.

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná têm previsão de chuvas acima da média, principalmente durante o trimestre analisado pelos órgãos meteorológicos.

O excesso de chuva pode provocar alagamentos, enchentes, deslizamentos de terra e prejuízos para a agricultura.

O INPE também aponta que algumas áreas do sul do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina podem registrar temperaturas abaixo da média, justamente em razão do maior volume de chuva previsto.

Norte: menos chuva e maior risco de seca e queimadas

Na Região Norte, a previsão indica redução das chuvas em grande parte do território, especialmente no norte e no leste da Amazônia.

A combinação de menos precipitações e temperaturas elevadas pode agravar as condições de seca, reduzir os níveis dos rios e aumentar o risco de incêndios florestais.

O boletim do INPE também destacou situações de seca extrema e severa em municípios de estados como Amazonas, Roraima e Acre, conforme dados parciais de setembro.

É importante destacar que nem toda a seca na Amazônia é provocada pelo El Niño. O aquecimento do Atlântico Tropical Norte também pode influenciar as condições de chuva, principalmente na porção oeste e sudoeste da região.

Nordeste: risco de redução das chuvas em parte da região

O norte do Nordeste é historicamente uma das áreas brasileiras mais sensíveis aos efeitos do El Niño.

Nos próximos meses, a previsão indica condições favoráveis à redução das chuvas em partes da região, o que pode aumentar o risco de estiagem e prejudicar atividades agrícolas.

Entretanto, os efeitos não devem ser iguais em todos os estados. O volume de chuva pode variar conforme a localização e a atuação de outros sistemas meteorológicos.

Centro-Oeste: calor e possibilidade de chuva abaixo da média

Mato Grosso, Goiás e outras áreas do Centro-Oeste também devem enfrentar temperaturas mais elevadas.

A previsão para novembro, dezembro e janeiro indica possibilidade de redução das chuvas em partes da região, principalmente em áreas de Mato Grosso e Goiás.

O cenário preocupa principalmente o setor agrícola, que depende da regularidade das precipitações para o desenvolvimento das lavouras.

A combinação de calor intenso e períodos de pouca chuva também pode aumentar o risco de incêndios e afetar a disponibilidade de água.

O que muda para a agricultura e o abastecimento de água?

Os efeitos do El Niño vão além das mudanças de temperatura e chuva. O fenômeno também pode provocar consequências econômicas e sociais.

No Sul, o excesso de precipitações pode dificultar o plantio, prejudicar a colheita e provocar perdas nas lavouras.

No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a redução das chuvas pode comprometer a produção agrícola e aumentar a necessidade de irrigação.

Já no Sudeste, a preocupação envolve principalmente o calor e a disponibilidade de água. Caso períodos de estiagem se prolonguem, os reservatórios podem sofrer pressão maior, especialmente em áreas que já enfrentam dificuldades de abastecimento.

Por isso, o monitoramento das condições dos rios, reservatórios e das previsões meteorológicas será importante ao longo dos próximos meses.

Aquecimento global pode agravar os efeitos do fenômeno

Além do El Niño, existe outro fator que precisa ser considerado: o aquecimento global.

Em entrevista sobre o fenômeno, o pesquisador Gilvan Sampaio, da Divisão de Modelagem Numérica do Sistema Terrestre do INPE, explicou que as mudanças climáticas representam uma preocupação ainda maior.

Segundo ele, o aquecimento global já está contribuindo para o aumento da frequência de eventos extremos, como ondas de calor, períodos de seca e chuvas intensas.

O El Niño pode intensificar esse cenário, potencializando os efeitos do aquecimento do planeta.

“Independentemente de ter El Niño ou não, estamos vendo os extremos aumentando a frequência em toda a região tropical, principalmente”, destacou o pesquisador.

Ou seja, mesmo quando o fenômeno perder força, os efeitos das mudanças climáticas continuarão sendo uma preocupação.

Até quando o El Niño deve durar?

As projeções atuais indicam que o fenômeno poderá permanecer ativo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.

A NOAA aponta uma probabilidade superior a 83% de manutenção de condições de El Niño forte a muito forte entre janeiro e março do próximo ano.

Apesar das projeções, os meteorologistas ressaltam que as previsões climáticas indicam tendências para períodos de vários meses. Elas não determinam exatamente quando ou onde ocorrerá uma onda de calor, uma tempestade ou um episódio de chuva intensa.

Por isso, a orientação é acompanhar os boletins do INPE, do Inmet e os avisos emitidos pela Defesa Civil.

O cenário para os próximos meses exige atenção: o Brasil deve enfrentar temperaturas acima da média em praticamente todas as regiões, enquanto a distribuição das chuvas poderá ampliar os riscos de seca em algumas áreas e de enchentes em outras.

Reportagem produzida com auxílio de dados da Agência Brasil.

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