Após derrotas eleitorais, ex-deputado se aproxima do bolsonarismo; movimento levanta questionamentos sobre uma possível estratégia para recuperar protagonismo político
O ex-deputado federal Júlio Delgado, de Juiz de Fora, divulgou um vídeo em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, segundo a informação fornecida para esta reportagem. O posicionamento representa uma mudança política relevante diante do discurso que o próprio Delgado adotou durante a campanha presidencial de 2026, quando defendia uma alternativa à polarização entre petistas e bolsonaristas.
A decisão abre espaço para uma interpretação política contundente: depois de acumular derrotas nas urnas e perder espaço no cenário nacional, Delgado pode estar apostando na força da polarização para tentar recuperar protagonismo. O movimento também levanta dúvidas sobre a coerência entre o discurso de independência política que apresentou durante a campanha e a escolha de se alinhar a um dos principais representantes da direita brasileira.
Das derrotas eleitorais à aproximação com o bolsonarismo
Em 2024, Delgado disputou a Prefeitura de Juiz de Fora pelo MDB e terminou em quarto lugar. Dois anos depois, integrou como candidato a vice-presidente a chapa de Augusto Cury (Avante), que não avançou ao segundo turno.
Os resultados representam reveses para um político que exerceu mandatos na Câmara dos Deputados por mais de duas décadas e ocupou posições de liderança partidária.
É nesse contexto que o apoio a Flávio Bolsonaro ganha relevância. A aproximação com o campo bolsonarista pode ser interpretada como uma tentativa de se reposicionar em um ambiente eleitoral no qual a disputa entre direita e esquerda concentra grande parte da atenção pública.
A hipótese de que Delgado esteja buscando recuperar espaço por meio dessa estratégia é uma interpretação política, e não uma motivação pessoal comprovada. Ainda assim, a sequência de derrotas e a mudança de posicionamento são elementos que justificam o debate sobre os rumos de sua carreira.
O passado partidário e a contradição política
A biografia oficial da Câmara dos Deputados registra passagens de Delgado pelo PSB e pelo PV, além de outras legendas, como Cidadania e MDB. O PSB e o PV mantiveram, em diferentes momentos, alianças com setores da centro-esquerda brasileira.
Em agosto de 2026, quando era candidato a vice na chapa de Augusto Cury, Delgado afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que havia eleitores cansados da polarização e que não se sentiam representados pelos principais candidatos. Na ocasião, defendeu uma candidatura capaz de dialogar com pessoas que não se identificavam nem com o petismo nem com o bolsonarismo.
Em entrevista ao UOL, no mesmo período, também atribuiu o crescimento de Cury nas pesquisas ao desgaste da polarização política.
O apoio a Flávio Bolsonaro coloca essas declarações em perspectiva. Se antes Delgado defendia uma alternativa aos dois campos, agora seu posicionamento público o aproxima de um deles.
O cálculo político por trás da decisão
Em uma eleição marcada pela disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), declarar apoio a um dos candidatos também significa escolher um campo político e se inserir nas articulações que se formam em torno dele.
Para Delgado, a aproximação pode representar uma oportunidade de reconstruir relações políticas, ampliar sua interlocução com o eleitorado conservador e voltar a ocupar espaço no debate nacional.
A leitura crítica é que o ex-deputado pode estar tentando aproveitar do bolsonarismo para tentar desesperadamento obter o luco político, já que só acumula derrotas amargas.
O episódio também reacende o debate sobre a coerência dos discursos de independência partidária no Brasil: até que ponto a defesa de uma alternativa à polarização permanece válida quando chega o momento de escolher um dos lados?
Para Júlio Delgado, a questão agora é política e pública: explicar como o apoio a Flávio Bolsonaro se concilia com as críticas à polarização que marcaram sua campanha presidencial.