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Costuras Sociológicas. “O dinossauro escapou: o curioso negacionismo das pesquisas eleitorais”

Por Giselle Moraes Moreira
Publicado em 05/10/2026
às 23:54

O dinossauro escapou: o curioso negacionismo das pesquisas eleitorais

Muitos filmes que abordam tragédias começam de maneira parecida: alguém, geralmente um cientista, alerta sobre o perigo, apresenta evidências, aponta riscos e alguma autoridade decide que aquilo não deve ser levado tão a sério. Exemplos não faltam: da ficção de Jurassic Park/Jurassic World ao bacaninha Não Olhe para Cima (Don’t Look Up, 2021), passando por Contágio (Contagion, 2011), Mercadores da Dúvida (Merchants of Doubt, 2014) e A Terra é Plana (Behind the Curve, 2018), entre tantos outros.

O roteiro é quase sempre conhecido: os sinais estão ali, os especialistas alertam, os dados existem, mas alguém prefere acreditar que não é bem assim. Até que o dinossauro escapa, o vírus se espalha ou o cometa se aproxima demais.

Quando falamos de negacionismo, no entanto, há uma questão curiosa. Parece relativamente fácil reconhecer o negacionista quando ele nega que a Terra é redonda, despreza as vacinas como instrumentos fundamentais de prevenção de doenças, recusa que o homem tenha chegado à Lua ou insiste que o golpe de 64 e o sistema que se implantou a partir dali “não foi ditadura ou tão ruim assim”. Em outras áreas, porém, a fronteira parece se tornar subitamente mais nebulosa. Algumas temáticas científicas produzem negacionismos em grupos muito diversos. E, quando entramos no campo das Ciências Humanas, surge com frequência aquela frase aparentemente democrática: “essa é a sua opinião; eu tenho a minha”. Como se toda discussão fosse apenas uma disputa entre opiniões equivalentes.

Naturaliza-se, assim, a ideia de que, a despeito de evidências, pesquisas e método científico, as Ciências Humanas seriam uma espécie de território do relativismo permanente. Sociologia, Ciência Política, História, Antropologia e Economia passam a ser tratadas como campos nos quais qualquer afirmação pode ser contraposta por outra, bastando acrescentar um “na minha opinião”. As pesquisas são descartadas; discussões sobre desigualdades sociais, racismo, gênero, violência, pobreza ou políticas públicas transformam-se em campos minados, atravessados por preconceitos, crenças pessoais e experiências individuais tomadas como provas universais. E acho que as pesquisas eleitorais estão entre esses curiosos nichos de negacionismo, sobretudo quando seus resultados apontam para caminhos dolorosos, inesperados ou simplesmente contrários às nossas próprias opções políticas.

Desde o início destas eleições, acompanhei os resultados das pesquisas. Observei os dados, comparei institutos, acompanhei a evolução ou a estagnação dos candidatos, as margens de erro, as metodologias e as probabilidades associadas às estimativas.

Pesquisas eleitorais são importantes ferramentas de interpretação dos momentos políticos. No Brasil, estão submetidas a regras de registro e transparência (Lei nº 9.504/1997, Resoluções TSE 23.600  de 12 de dezembro de 2019 e 23.608 de 18 de dezembro de 2019), que exigem informações sobre metodologia, população pesquisada, plano amostral, período de realização, margem de erro, nível de confiança, contratante e outras características do levantamento. E há algo que às vezes esquecemos: uma pesquisa eleitoral não é simplesmente alguém telefonando para algumas pessoas e perguntando em quem elas pretendem votar. Ali se encontram conhecimentos da Ciência Política, da Sociologia, da metodologia de pesquisa quantitativa, da amostragem e da Estatística. Pesquisa não é palpite.

Isso não significa, evidentemente, que seja uma fotografia perfeita da realidade. A pesquisa eleitoral é um retrato de determinado momento, produzido a partir de uma amostra e dentro de determinadas condições metodológicas. Ela não é a eleição e não prevê o futuro com certeza matemática. Ela mede uma população por meio de uma amostra e apresenta estimativas sujeitas a incertezas. No entanto, como estamos falando de uma área que mexe profundamente com nossas identidades políticas, medos e esperanças, basta muitas vezes que o resultado desagrade para aparecerem os conhecidos rótulos: “essa pesquisa foi comprada”, “esse instituto trabalha para aquele candidato”, “querem manipular o eleitor”.

E aqui chego às vésperas da eleição presidencial. No dia 3 de outubro de 2026, sete pesquisas foram divulgadas. Era a fotografia mais próxima que tínhamos da votação que aconteceria logo depois. Ainda assim, mesmo pesquisas realizadas tão perto da eleição podem não captar integralmente movimentos que acontecem nas últimas horas: mudanças provocadas pelo voto útil, migração entre candidaturas, decisão tardia de indecisos, abstenção diferente da esperada e outros acontecimentos capazes de modificar a composição final do eleitorado que efetivamente comparece às urnas. Há ainda episódios extraordinários de interferência no processo eleitoral, como as operações da Polícia Rodoviária Federal no segundo turno de 2022, posteriormente investigadas pelas instituições brasileiras.

Ou seja: pesquisa não é urna.  Mas tampouco deixa de ser ciência porque a urna apresentou um número um pouco diferente. O fato é que, diante dos resultados apresentados por alguns institutos na reta final, vimos novamente o conhecido movimento de desacreditar as pesquisas. E isso não ocorreu apenas entre perfis anônimos das redes sociais. Pessoas influentes, algumas delas com grande prestígio em redes e canais de opinião, também aderiram ao discurso de desqualificação.

A Quaest, em particular, foi severamente atacada quando divulgou um cenário de empate técnico na reta final. Sua relação comercial com um grande grupo de comunicação apareceu imediatamente como argumento para desqualificar não apenas o instituto, mas os próprios números apresentados. E aqui está, para mim, a questão central.

Considero as pesquisas eleitorais ferramentas científicas importantes para compreender a realidade e, inclusive, para orientar tomadas de decisão. Isso significa acreditar que todo instituto é infalível? Evidentemente, não. Existem erros metodológicos? Sim. Existem pesquisas melhores e piores? Claro. Podem existir institutos antiéticos, equívocos metodológicos ou mesmo interesses econômicos interferindo na produção e divulgação de informações? Seria ingenuidade afirmar que não. Isso pode acontecer em praticamente qualquer campo de atividade humana.

O que me parece problemático é aceitar a pesquisa quando ela confirma aquilo em que acreditamos e transformá-la em fraude quando seus números nos desagradam. Porque, nesse caso, não estamos analisando os dados. Estamos apenas procurando dados que confirmem nossas crenças. E talvez seja justamente aí que a discussão sobre pesquisas eleitorais reencontre o início deste texto.

Nos filmes, as grandes tragédias frequentemente começam assim: há evidências, há dados, há especialistas alertando, mas alguém decide que prefere acreditar em outra coisa. Às vezes porque há dinheiro envolvido; às vezes porque há poder ou mesmo porque reconhecer o problema seria inconveniente. E, às vezes, simplesmente porque a realidade não corresponde àquilo que gostaríamos que ela fosse. Em Jurassic Park, sabemos mais ou menos o que acontece depois. Na política, talvez seja melhor não esperar o dinossauro escapar para começar a olhar os dados.

Para concluir, apresento abaixo uma análise dos resultados da eleição presidencial de 2026, comparando os números efetivamente obtidos nas urnas com as pesquisas divulgadas às vésperas da votação, suas respectivas margens de erro e os desvios observados. Acrescento também um histórico dos meses anteriores, porque uma pesquisa isolada conta apenas uma parte da história. Quando colocamos os levantamentos em sequência, conseguimos enxergar algo ainda mais interessante: o movimento, isso inclui a evolução, a estabilidade, as quedas, as aproximações e as mudanças nas intenções de voto ao longo do tempo. Os números não pensam por nós. Mas talvez nos ajudem a pensar melhor.

Então vale olhar para os números. Porque, afinal, se este texto é uma defesa da ciência, não faria muito sentido terminá-lo apenas com impressões ou convicções.

Uma análise sobre as pesquisas eleitorais para Presidente divulgadas em outubro de 2026.

O resultado das urnas colocou Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%, uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual. E o que diziam as pesquisas divulgadas às vésperas da eleição?

Instituto Margem de erro Lula Flávio Urna: Lula Urna: Flávio
Quaest ±2,0 46,0% 45,0%    45,16% 47,03%
Datafolha ±2,0 45,0% 42,0% 45,16% 47,03%
AtlasIntel ±1,0 47,0% 44,1% 45,16% 47,03%
Futura ±2,2 42,6% 44,8% 45,16% 47,03%
Gerp ≈±2,0 44,0% 46,0% 45,16% 47,03%
CNT/MDA ±2,2 47,8% 42,1% 45,16% 47,03%
Palver* ±2,4 43,0% 47,0% 45,16% 47,03%

*Há divergência entre as fontes consultadas sobre a margem atribuída à pesquisa Palver; por isso, esse dado deve ser lido com cautela.

Comparando os dados, podemos desmontar tanto a ideia de que “as pesquisas acertaram tudo” quanto a afirmação oposta de que “as pesquisas erraram tudo”. Ciência raramente cabe em frases tão convenientes.

A Quaest, por exemplo, apontou 46% para Lula e 45% para Flávio. Lula terminou com 45,16%, portanto dentro da margem. Flávio chegou a 47,03% — apenas 0,03 ponto acima do limite superior do intervalo da pesquisa. A Quaest não captou quem terminaria numericamente na frente, mas captou algo fundamental: o tamanho do equilíbrio da disputa.

O Datafolha, por sua vez, praticamente cravou o resultado de Lula: apontou 45%, e ele recebeu 45,16%. Errou mais significativamente ao estimar Flávio em 42%. A Palver fez quase o movimento contrário: apontou 47% para Flávio, que terminou com 47,03%, mas estimou Lula abaixo do que ele efetivamente recebeu. E o Gerp chegou muito perto dos dois simultaneamente: indicou 46% para Flávio e 44% para Lula. Nas urnas foram 47,03% e 45,16%. Mais impressionante ainda: previa uma distância de 2 pontos entre eles; a urna mostrou 1,87.

Mas talvez o mais interessante não esteja na fotografia da véspera. Está no filme inteiro.

Quando observamos as pesquisas ao longo dos meses, percebemos uma aproximação progressiva entre os dois candidatos. Na série da Quaest, por exemplo, a vantagem de Lula sobre Flávio passou de 12 pontos em julho para 9, 7, 5, 4 e, finalmente, apenas 1 ponto na véspera, considerando os votos válidos. Nas urnas, a diferença se inverteu: Flávio terminou 1,87 ponto à frente.

O Datafolha enxergou movimento semelhante. A distância entre os candidatos chegou a 10 pontos em junho, caiu para 8 em julho, 6 em agosto e foi diminuindo ao longo de setembro. Portanto, não apareceu subitamente um eleitorado completamente diferente na manhã da eleição. As pesquisas vinham mostrando a aproximação.

O fenômeno que merece ser estudado é outro.

Lula terminou muito próximo do patamar indicado por diversos levantamentos: 45,16% na urna, diante de 46% da Quaest, 45% do Datafolha e 44% do Gerp. A maior dificuldade de parte das pesquisas esteve em captar integralmente o tamanho do voto final de Flávio, que chegou a 47,03%. Quaest apontava 45%; Datafolha, 42%; Atlas, 44,1%; enquanto Gerp já apontava 46% e Palver, 47%.

A média final das pesquisas ajuda a enxergar ainda melhor o fenômeno: estava em aproximadamente 45,5% para Lula e 44,8% para Flávio. A urna trouxe 45,16% e 47,03%, respectivamente. Ou seja, a média ficou apenas 0,34 ponto distante do resultado de Lula, enquanto subestimou Flávio em cerca de 2,2 pontos.

Há perguntas científicas interessantes a fazer diante disso: houve migração de votos nas últimas horas? Voto útil? Mudança entre os indecisos? Diferença entre intenção declarada e comparecimento efetivo? Algum segmento do eleitorado foi sub-representado pelas metodologias utilizadas? São perguntas.

E perguntas são muito diferentes de decretar simplesmente: “as pesquisas são falsas”.

Aliás, talvez esteja justamente aí a diferença entre pensamento científico e negacionismo. Diante de um resultado inesperado, a ciência pergunta: por quê? Examina o método, confronta hipóteses, procura variáveis que possam explicar o resultado, reconhece limites e tenta produzir conhecimento melhor. O negacionismo faz o caminho mais curto: se o dado contraria aquilo em que acredito, o dado deve estar errado. E voltamos, mais uma vez, aos filmes do início deste texto.

O problema nunca foi o cientista não conseguir prever exatamente o minuto em que o dinossauro escaparia. O problema começou quando decidiram que, porque a ciência não era capaz de prever tudo, não valia a pena escutá-la.

*Nota metodológica

O dinossauro escapou: o curioso negacionismo das pesquisas eleitorais

Muitos filmes que abordam tragédias começam de maneira parecida: alguém, geralmente um cientista, alerta sobre o perigo, apresenta evidências, aponta riscos e alguma autoridade decide que aquilo não deve ser levado tão a sério. Exemplos não faltam: da ficção de Jurassic Park/Jurassic World ao bacaninha Não Olhe para Cima (Don’t Look Up, 2021), passando por Contágio (Contagion, 2011), Mercadores da Dúvida (Merchants of Doubt, 2014) e A Terra é Plana (Behind the Curve, 2018), entre tantos outros.

O roteiro é quase sempre conhecido: os sinais estão ali, os especialistas alertam, os dados existem, mas alguém prefere acreditar que não é bem assim. Até que o dinossauro escapa, o vírus se espalha ou o cometa se aproxima demais.

Quando falamos de negacionismo, no entanto, há uma questão curiosa. Parece relativamente fácil reconhecer o negacionista quando ele nega que a Terra é redonda, despreza as vacinas como instrumentos fundamentais de prevenção de doenças, recusa que o homem tenha chegado à Lua ou insiste que o golpe de 64 e o sistema que se implantou a partir dali “não foi ditadura ou tão ruim assim”. Em outras áreas, porém, a fronteira parece se tornar subitamente mais nebulosa. Algumas temáticas científicas produzem negacionismos em grupos muito diversos. E, quando entramos no campo das Ciências Humanas, surge com frequência aquela frase aparentemente democrática: “essa é a sua opinião; eu tenho a minha”. Como se toda discussão fosse apenas uma disputa entre opiniões equivalentes.

Naturaliza-se, assim, a ideia de que, a despeito de evidências, pesquisas e método científico, as Ciências Humanas seriam uma espécie de território do relativismo permanente. Sociologia, Ciência Política, História, Antropologia e Economia passam a ser tratadas como campos nos quais qualquer afirmação pode ser contraposta por outra, bastando acrescentar um “na minha opinião”. As pesquisas são descartadas; discussões sobre desigualdades sociais, racismo, gênero, violência, pobreza ou políticas públicas transformam-se em campos minados, atravessados por preconceitos, crenças pessoais e experiências individuais tomadas como provas universais. E acho que as pesquisas eleitorais estão entre esses curiosos nichos de negacionismo, sobretudo quando seus resultados apontam para caminhos dolorosos, inesperados ou simplesmente contrários às nossas próprias opções políticas.

Desde o início destas eleições, acompanhei os resultados das pesquisas. Observei os dados, comparei institutos, acompanhei a evolução ou a estagnação dos candidatos, as margens de erro, as metodologias e as probabilidades associadas às estimativas.

Pesquisas eleitorais são importantes ferramentas de interpretação dos momentos políticos. No Brasil, estão submetidas a regras de registro e transparência (Lei nº 9.504/1997, Resoluções TSE 23.600  de 12 de dezembro de 2019 e 23.608 de 18 de dezembro de 2019), que exigem informações sobre metodologia, população pesquisada, plano amostral, período de realização, margem de erro, nível de confiança, contratante e outras características do levantamento. E há algo que às vezes esquecemos: uma pesquisa eleitoral não é simplesmente alguém telefonando para algumas pessoas e perguntando em quem elas pretendem votar. Ali se encontram conhecimentos da Ciência Política, da Sociologia, da metodologia de pesquisa quantitativa, da amostragem e da Estatística. Pesquisa não é palpite.

Isso não significa, evidentemente, que seja uma fotografia perfeita da realidade. A pesquisa eleitoral é um retrato de determinado momento, produzido a partir de uma amostra e dentro de determinadas condições metodológicas. Ela não é a eleição e não prevê o futuro com certeza matemática. Ela mede uma população por meio de uma amostra e apresenta estimativas sujeitas a incertezas. No entanto, como estamos falando de uma área que mexe profundamente com nossas identidades políticas, medos e esperanças, basta muitas vezes que o resultado desagrade para aparecerem os conhecidos rótulos: “essa pesquisa foi comprada”, “esse instituto trabalha para aquele candidato”, “querem manipular o eleitor”.

E aqui chego às vésperas da eleição presidencial. No dia 3 de outubro de 2026, sete pesquisas foram divulgadas. Era a fotografia mais próxima que tínhamos da votação que aconteceria logo depois. Ainda assim, mesmo pesquisas realizadas tão perto da eleição podem não captar integralmente movimentos que acontecem nas últimas horas: mudanças provocadas pelo voto útil, migração entre candidaturas, decisão tardia de indecisos, abstenção diferente da esperada e outros acontecimentos capazes de modificar a composição final do eleitorado que efetivamente comparece às urnas. Há ainda episódios extraordinários de interferência no processo eleitoral, como as operações da Polícia Rodoviária Federal no segundo turno de 2022, posteriormente investigadas pelas instituições brasileiras.

Ou seja: pesquisa não é urna.  Mas tampouco deixa de ser ciência porque a urna apresentou um número um pouco diferente. O fato é que, diante dos resultados apresentados por alguns institutos na reta final, vimos novamente o conhecido movimento de desacreditar as pesquisas. E isso não ocorreu apenas entre perfis anônimos das redes sociais. Pessoas influentes, algumas delas com grande prestígio em redes e canais de opinião, também aderiram ao discurso de desqualificação.

A Quaest, em particular, foi severamente atacada quando divulgou um cenário de empate técnico na reta final. Sua relação comercial com um grande grupo de comunicação apareceu imediatamente como argumento para desqualificar não apenas o instituto, mas os próprios números apresentados. E aqui está, para mim, a questão central.

Considero as pesquisas eleitorais ferramentas científicas importantes para compreender a realidade e, inclusive, para orientar tomadas de decisão. Isso significa acreditar que todo instituto é infalível? Evidentemente, não. Existem erros metodológicos? Sim. Existem pesquisas melhores e piores? Claro. Podem existir institutos antiéticos, equívocos metodológicos ou mesmo interesses econômicos interferindo na produção e divulgação de informações? Seria ingenuidade afirmar que não. Isso pode acontecer em praticamente qualquer campo de atividade humana.

O que me parece problemático é aceitar a pesquisa quando ela confirma aquilo em que acreditamos e transformá-la em fraude quando seus números nos desagradam. Porque, nesse caso, não estamos analisando os dados. Estamos apenas procurando dados que confirmem nossas crenças. E talvez seja justamente aí que a discussão sobre pesquisas eleitorais reencontre o início deste texto.

Nos filmes, as grandes tragédias frequentemente começam assim: há evidências, há dados, há especialistas alertando, mas alguém decide que prefere acreditar em outra coisa. Às vezes porque há dinheiro envolvido; às vezes porque há poder ou mesmo porque reconhecer o problema seria inconveniente. E, às vezes, simplesmente porque a realidade não corresponde àquilo que gostaríamos que ela fosse. Em Jurassic Park, sabemos mais ou menos o que acontece depois. Na política, talvez seja melhor não esperar o dinossauro escapar para começar a olhar os dados.

Para concluir, apresento abaixo uma análise dos resultados da eleição presidencial de 2026, comparando os números efetivamente obtidos nas urnas com as pesquisas divulgadas às vésperas da votação, suas respectivas margens de erro e os desvios observados. Acrescento também um histórico dos meses anteriores, porque uma pesquisa isolada conta apenas uma parte da história. Quando colocamos os levantamentos em sequência, conseguimos enxergar algo ainda mais interessante: o movimento, isso inclui a evolução, a estabilidade, as quedas, as aproximações e as mudanças nas intenções de voto ao longo do tempo. Os números não pensam por nós. Mas talvez nos ajudem a pensar melhor.

Então vale olhar para os números. Porque, afinal, se este texto é uma defesa da ciência, não faria muito sentido terminá-lo apenas com impressões ou convicções.

 

Uma análise sobre as pesquisas eleitorais para Presidente divulgadas em outubro de 2026.

O resultado das urnas colocou Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%, uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual. E o que diziam as pesquisas divulgadas às vésperas da eleição?

Instituto

Margem de erro

Lula

Flávio

Urna: Lula

Urna: Flávio

Quaest

±2,0

46,0%

45,0%

   45,16%

47,03%

Datafolha

±2,0

45,0%

42,0%

45,16%

47,03%

AtlasIntel

±1,0

47,0%

44,1%

45,16%

47,03%

Futura

±2,2

42,6%

44,8%

45,16%

47,03%

Gerp

≈±2,0

44,0%

46,0%

45,16%

47,03%

CNT/MDA

±2,2

47,8%

42,1%

45,16%

47,03%

Palver*

±2,4

43,0%

47,0%

45,16%

47,03%

*Há divergência entre as fontes consultadas sobre a margem atribuída à pesquisa Palver; por isso, esse dado deve ser lido com cautela.

Comparando os dados, podemos desmontar tanto a ideia de que “as pesquisas acertaram tudo” quanto a afirmação oposta de que “as pesquisas erraram tudo”. Ciência raramente cabe em frases tão convenientes.

A Quaest, por exemplo, apontou 46% para Lula e 45% para Flávio. Lula terminou com 45,16%, portanto dentro da margem. Flávio chegou a 47,03% — apenas 0,03 ponto acima do limite superior do intervalo da pesquisa. A Quaest não captou quem terminaria numericamente na frente, mas captou algo fundamental: o tamanho do equilíbrio da disputa.

O Datafolha, por sua vez, praticamente cravou o resultado de Lula: apontou 45%, e ele recebeu 45,16%. Errou mais significativamente ao estimar Flávio em 42%. A Palver fez quase o movimento contrário: apontou 47% para Flávio, que terminou com 47,03%, mas estimou Lula abaixo do que ele efetivamente recebeu. E o Gerp chegou muito perto dos dois simultaneamente: indicou 46% para Flávio e 44% para Lula. Nas urnas foram 47,03% e 45,16%. Mais impressionante ainda: previa uma distância de 2 pontos entre eles; a urna mostrou 1,87.

Mas talvez o mais interessante não esteja na fotografia da véspera. Está no filme inteiro.

Quando observamos as pesquisas ao longo dos meses, percebemos uma aproximação progressiva entre os dois candidatos. Na série da Quaest, por exemplo, a vantagem de Lula sobre Flávio passou de 12 pontos em julho para 9, 7, 5, 4 e, finalmente, apenas 1 ponto na véspera, considerando os votos válidos. Nas urnas, a diferença se inverteu: Flávio terminou 1,87 ponto à frente.

O Datafolha enxergou movimento semelhante. A distância entre os candidatos chegou a 10 pontos em junho, caiu para 8 em julho, 6 em agosto e foi diminuindo ao longo de setembro. Portanto, não apareceu subitamente um eleitorado completamente diferente na manhã da eleição. As pesquisas vinham mostrando a aproximação.

O fenômeno que merece ser estudado é outro.

Lula terminou muito próximo do patamar indicado por diversos levantamentos: 45,16% na urna, diante de 46% da Quaest, 45% do Datafolha e 44% do Gerp. A maior dificuldade de parte das pesquisas esteve em captar integralmente o tamanho do voto final de Flávio, que chegou a 47,03%. Quaest apontava 45%; Datafolha, 42%; Atlas, 44,1%; enquanto Gerp já apontava 46% e Palver, 47%.

A média final das pesquisas ajuda a enxergar ainda melhor o fenômeno: estava em aproximadamente 45,5% para Lula e 44,8% para Flávio. A urna trouxe 45,16% e 47,03%, respectivamente. Ou seja, a média ficou apenas 0,34 ponto distante do resultado de Lula, enquanto subestimou Flávio em cerca de 2,2 pontos.

Há perguntas científicas interessantes a fazer diante disso: houve migração de votos nas últimas horas? Voto útil? Mudança entre os indecisos? Diferença entre intenção declarada e comparecimento efetivo? Algum segmento do eleitorado foi sub-representado pelas metodologias utilizadas? São perguntas.

E perguntas são muito diferentes de decretar simplesmente: “as pesquisas são falsas”.

Aliás, talvez esteja justamente aí a diferença entre pensamento científico e negacionismo. Diante de um resultado inesperado, a ciência pergunta: por quê? Examina o método, confronta hipóteses, procura variáveis que possam explicar o resultado, reconhece limites e tenta produzir conhecimento melhor. O negacionismo faz o caminho mais curto: se o dado contraria aquilo em que acredito, o dado deve estar errado. E voltamos, mais uma vez, aos filmes do início deste texto.

O problema nunca foi o cientista não conseguir prever exatamente o minuto em que o dinossauro escaparia. O problema começou quando decidiram que, porque a ciência não era capaz de prever tudo, não valia a pena escutá-la.

*Nota metodológica
Os dados eleitorais e as pesquisas citadas neste artigo foram reunidos a partir dos resultados oficiais da eleição e das informações divulgadas pelos próprios institutos e por veículos de imprensa. Para a organização, sistematização e comparação dos percentuais, margens de erro e séries históricas, foi utilizada ferramenta de inteligência artificial. Os dados foram posteriormente confrontados com as fontes consultadas. A interpretação e as conclusões apresentadas no artigo são de responsabilidade da autora.

Sobre Giselle Moraes Moreira

Sou Giselle…e Moraes Moreira — Moraes de mãe, Moreira de pai — sobrenome de cantor da MPB. Sou gêmea e, desde pequena, precisei aprender que o mundo seria necessariamente compartilhado. Irmã de mais quatro. Mineira, nativa de Juiz de Fora. Cresci na cidade que se tece entre morros e memórias, tragédias e encantamentos, torresmo e bares, boa música e ciência bem-feita, pública e para muitos. Aprendi que sociologia é também conversa de boteco, o porquê de tomarmos a cerveja gelada e sobre pratos que não gosto de lavar. Não trago certezas, trago um olhar: nem puramente acadêmico, nem meramente casual. Sou socióloga e bacharel em Ciência Política, pra compreender sobre Ser e Poder; pós-graduada em Estatística, pra desconfiar dos números; e em Marketing e Negócios, pra confrontar os desejos; mestre em Antropologia do Corpo, porque o corpo é o primeiro lugar onde a política acontece. Sou professora, ensino e aprendo que somos costurados de sociabilidades e muita circunstância…

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