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Coluna

Enxergar os filhos dos outros

Por Giselle Moraes Moreira
Publicado em 28/09/2026
às 19:54

Enxergar os filhos dos outros

Muita gente sai de casa para escolher um futuro. Há também quem vá apenas para impedir que esse futuro alcance os outros.

Naquela manhã, ele acordou cedo. Tomou café, vestiu a camisa, conferiu o número do candidato e saiu de casa. Não levava um projeto de país. Não sabia dizer o que seu candidato faria diante da desigualdade, do desemprego, da crise ambiental ou da falta de oportunidades. Mas sabia muito bem em quem não queria votar. E, mais do que isso, sabia quem deixaria para trás.

Na fila, repetia frases que ouvira tantas vezes que já nem lembrava de onde vinham: quem recebe Bolsa Família é vagabundo; pobre não gosta de trabalhar; artista vive de dinheiro público; direitos humanos só servem para proteger bandidos. Falava com a segurança de quem acredita conhecer um país que nunca se dispôs a enxergar.

Não conhecia a mulher que acordava antes do amanhecer para deixar os filhos na creche. Não conhecia o trabalhador que, mesmo empregado, precisava complementar a renda para garantir comida em casa. Não sabia quase nada sobre a vida dessas pessoas. Ainda assim, tinha sobre todos eles uma opinião carregada de preconceitos.

Para ele, a pobreza nada tinha a ver com processos históricos, com concentração de renda ou com estruturas sociais. Era uma questão de escolha. Era preguiça. Uma falha individual ou mesmo defeito de caráter. E quando a desigualdade passa a ser explicada apenas como responsabilidade de quem sofre seus efeitos, ela desaparece como problema coletivo.

“Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”[i]

A desigualdade ocupa há muito tempo um lugar central nas ciências sociais. Ao longo do século XX, inúmeros estudos mostraram que ela não decorre de diferenças de esforço ou talento, mas nasce de processos históricos que distribuem recursos, oportunidades e direitos de maneira profundamente desigual. No Brasil, essa realidade também carrega marcas de uma herança escravocrata persistente, do racismo, das desigualdades de gênero e de diferentes formas de exclusão que atingem, em particular, negros, indígenas, quilombolas, mulheres e pessoas LGBTQIA+. Quando ignoramos esse processo, transformamos problemas coletivos em responsabilidades individuais, projeto de país em ressentimento e reparação histórica em ameaça.

Se alguém não prosperou, conclui-se que não trabalhou o suficiente. Era a velha narrativa meritocrática, confortável justamente porque elimina o contexto. A mesma sociedade que oferece pontos de partida radicalmente diferentes passa a cobrar resultados idênticos e, depois, legitima discursos e práticas que transformam obstáculos sociais em fracasso pessoal.

Ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, Hannah Arendt formulou o conceito de banalidade do mal. Seu argumento era inquietante: atos profundamente desumanos podem ser praticados por pessoas comuns quando elas deixam de refletir sobre as consequências de suas ações. O ódio raramente chega vestido de monstros. Às vezes está na conversa do almoço de domingo, na piada recorrente do grupo da família, no comentário feito diante da televisão. Outras vezes aparece nos comentários de uma notícia, quando alguém comemora a agressão contra um suspeito de furtar um celular e escreve frases como “ganhei meu dia”. Arendt nos convida a pensar sobre nossa responsabilidade individual diante da violência que vira rotina. Mas, acima de tudo, nos faz refletir sobre a naturalidade com que nos acostumamos a repetir que os outros merecem menos direitos, menos oportunidades ou menos proteção do Estado.

Aquele eleitor não se considerava preconceituoso. Dizia respeitar as mulheres, ter amigos negros, não ter nada contra os pobres ou gays. Mas reproduzia discursos que diminuíam exatamente essas pessoas.

Erving Goffman mostrou como o estigma reduz indivíduos a uma marca única, negativa e simplificadora. Nessa lógica, o beneficiário deixa de ser trabalhador; o morador da periferia deixa de ter uma história e se torna suspeito; o artista deixa de ser trabalhador da cultura e vira parasita. Caricaturas são sempre mais fáceis de odiar do que pessoas reais. Quando isso acontece, a política também se transforma: deixa de ser um espaço de construção coletiva e passa a funcionar como território de hostilidade. O voto já não expressa um projeto de futuro, tornando-se um instrumento de punição simbólica contra grupos convertidos em inimigos.

Ele também tinha certezas sobre a cultura. Repetia que artistas viviam às custas da Lei Rouanet. Nunca procurara entender como funcionavam os mecanismos de incentivo cultural, nem sabia distinguir captação de recursos de gasto público efetivo. Ignorava, inclusive, que a lei leva o nome de Sérgio Paulo Rouanet, proponente da lei e secretário da Cultura do governo Collor, em 1991. Mas não precisava dessas informações; bastava-lhe uma narrativa simples. Curiosamente, sua indignação nem sempre aparecia quando prefeituras contratavam cachês milionários para shows de sertanejos. O problema parecia menos ligado ao dinheiro público e mais a quem o recebia.

Até a nossa indignação tem endereço e base social. Aquele eleitor não precisava conhecer alguém para desprezá-lo: o problema da desigualdade era o pobre; da segurança, o morador da periferia; da educação, o professor; da cultura, o artista. Havia sempre um culpado com nome e rosto a quem apontar o dedo. Assim, a desigualdade vira falha individual. O preconceito vira “minha opinião”. A exclusão recebe o nome de justiça. E a crueldade pode até parecer virtude.

Chegou sua vez de votar. Digitou o número. Confirmou. Saiu satisfeito.

Seu voto fora movido muito mais pela rejeição do que pela esperança. Rejeição a grupos sociais, formas de vida e ideias que aprendera a temer ou desprezar. A urna não representava a construção de um futuro comum: foi instrumento do seu ressentimento. Naquela manhã, pouco importavam soberania, democracia, instituições ou políticas públicas. Pouco importavam a ciência, as escolas e universidades públicas, ou os benefícios sociais e políticas de reparação. Pouco importava perguntar que país surgiria das escolhas feitas naquele dia. Importava vencer — mesmo sem saber exatamente o significado daquela vitória para milhões de brasileiros. Ou para os seus.

Voltou para casa. A televisão estava ligada. Havia contas espalhadas sobre a mesa. Na parede, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A esposa lavava a louça. Na sala, os filhos ocupavam a tarde entre deveres da escola, perguntas sobre o lazer do dia e pequenas distrações cotidianas.

Ele sentou no sofá e olhou para as crianças. Talvez desejasse para elas uma boa educação, um trabalho digno, segurança, oportunidades que nunca tivera. Talvez sonhasse com uma vida melhor do que a sua. Mas nada disso pesara realmente na hora do voto. Não havia refletido sobre quais propostas ampliariam oportunidades, fortaleceriam a proteção social ou reduziriam desigualdades. Tampouco percebera que o futuro dos próprios filhos estava ligado ao futuro dos filhos dos outros: dos filhos da mulher que recebe Bolsa Família, dos filhos do desempregado, dos filhos do morador da periferia, dos filhos daqueles que aprendera a desprezar.

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”[ii]

Como se não enxergasse que nenhuma criança cresce isolada do mundo; que a violência não respeita muros; que a precarização da vida de uns produz consequências para muitos. Nenhuma sociedade profundamente desigual consegue oferecer segurança duradoura apenas para alguns.

Havia amor naquele olhar? Certamente. Mas faltava perceber que os filhos dos outros também eram filhos de alguém. Que as crianças pobres sonham. Que os jovens das periferias têm medo, ambições, afetos e desejos de futuro.

Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago constrói uma alegoria assustadora na qual uma epidemia de cegueira branca expõe a fragilidade dos vínculos humanos e das instituições que organizam a vida comum. A cegueira daquela manhã era diferente apenas na aparência, porque era também uma cegueira social. Não lhe faltavam olhos. Também não lhe faltavam informações. O que faltava era a disposição de confrontar certezas. E, embora amasse profundamente os próprios filhos, não conseguia reconhecer nos filhos dos outros a mesma humanidade.

Talvez essa seja uma das contradições mais perturbadoras do nosso tempo: desejar um futuro melhor para quem amamos e, simultaneamente, aceitar discursos que negam dignidade a tantas outras pessoas. Que espécie de futuro construímos quando deixamos de reconhecer o outro como parte dele?

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos…”[iii]

A manhã terminou como tantas outras. A televisão continuou ligada. As crianças voltaram a brincar. O almoço foi servido. A rotina seguiu seu curso. Ele havia cumprido seu dever eleitoral, mas continuava incapaz de enxergar o mundo que ajudava a construir.

Porque existe uma cegueira que não nos impede de amar os nossos filhos. Ela apenas nos impede de reconhecer os filhos dos outros. E uma sociedade que deixa de enxergá-los talvez descubra, tarde demais, que também perdeu a capacidade de imaginar um futuro para os seus.

[i] [ii] [iii]SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira.
 
 

Sobre Giselle Moraes Moreira

Sou Giselle…e Moraes Moreira — Moraes de mãe, Moreira de pai — sobrenome de cantor da MPB. Sou gêmea e, desde pequena, precisei aprender que o mundo seria necessariamente compartilhado. Irmã de mais quatro. Mineira, nativa de Juiz de Fora. Cresci na cidade que se tece entre morros e memórias, tragédias e encantamentos, torresmo e bares, boa música e ciência bem-feita, pública e para muitos. Aprendi que sociologia é também conversa de boteco, o porquê de tomarmos a cerveja gelada e sobre pratos que não gosto de lavar. Não trago certezas, trago um olhar: nem puramente acadêmico, nem meramente casual. Sou socióloga e bacharel em Ciência Política, pra compreender sobre Ser e Poder; pós-graduada em Estatística, pra desconfiar dos números; e em Marketing e Negócios, pra confrontar os desejos; mestre em Antropologia do Corpo, porque o corpo é o primeiro lugar onde a política acontece. Sou professora, ensino e aprendo que somos costurados de sociabilidades e muita circunstância…

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