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Coluna

Nomes escritos a giz

Por Giselle Moraes Moreira
Publicado em 14/09/2026
às 13:49
Nomes escritos a giz
A docência ainda pulsa!

Tinha seis anos e uma mochila grande demais para as costas.
Naquele dia, chegou em casa sem nem tirar o uniforme azul e branco, com a bermuda um pouco larga para o corpo ainda pequeno. Seus olhos brilhavam quando disse:
— Mãe! Você sabia que os polvos têm três corações?
Também tinha aprendido a escrever uma palavra nova. E descobrira que, juntando uma letra com outra, aqueles riscos que antes não diziam nada começavam a dizer coisas. Foi Tia Terezinha quem segurou sua mão nas primeiras letras. Até virarem palavra.
Vieram o lápis apontado, a borracha que mais rasgava o caderno do que apagava, o cheirinho do caderno novo. Veio a história antes do recreio. O desenho colado na parede. Os números contados nos dedos das mãos…
Seu mundo foi ficando um pouco maior.
Alfabetização. Letramento. Descoberta. Cuidado. Leituras trilhadas no afeto.
E, atravessando a sala de aula: desvalorização, precarização, desrespeito, adoecimento, raiva, gritaria.
E a docência ainda pulsa!
A docência ainda pulsa!

Ela tinha doze anos quando chegou ao sexto ano.
Agora eram muitos cadernos, muitas salas, muitos professores. Já não havia uma única mão conduzindo os dias; havia muitas, costurando saberes. Aprendia sobre planetas, sobre o passado, sobre territórios e sobre células, sobre guerras e revoluções, sobre movimentos e esportes, sobre arte, idiomas, números e cálculos, sobre desigualdades e esperança…
Conheceu o Prof. César, que desenhava mapas no quadro. O Prof. Chicão, que fazia experiências e deixava a sala inteira esperando um novo saber amanhecer. A Beth, professora de cabelos pretos e corpo magro, que lia poemas em voz alta — a literatura ganhava sabor! E o Juarez, que percebeu que ela estava quieta demais naquele dia.
Certa noite, durante o jantar, interrompeu a conversa dos pais:
— Pai, você sabia que um mapa também pode mostrar quem tem poder?
O pai levantou os olhos do prato. Naquela noite, sem perceber, uma menina de doze anos levou a escola para a mesa do jantar.
Curiosidade. Pergunta. Convivência. Debate. Conhecimento. Fios tecidos de aprendizagem.
E, irrompendo pela porta da sala: censura, Escola sem Partido, intimidação, perseguição, desrespeito, apatia.
E a docência ainda pulsa!
A docência ainda pulsa!

Ele tinha dezessete anos e algumas certezas sobre quase tudo.
Até a aula do Prof. Falves. O professor fez uma pergunta. Ele respondeu rápido. Outra pergunta. Outra ainda. Ele respondeu com menos certeza. A certeza cedeu lugar à dúvida — e ao silêncio. E ele saiu da aula incomodado.
Pensou no assunto no ônibus. Buscou algo na internet. Leu um texto. Discordou. Voltou. Perguntou.
Anos depois, talvez tivesse esquecido o conteúdo da prova. Mas não aquela pergunta.
E vieram outros professores, com livros e apostilas debaixo do braço, com pincéis e bolas, com experiências e teorias, abrindo frestas por onde o mundo podia ser visto de outros jeitos.
Dúvida. Argumento. Reflexão. Estranhamento. Conhecimentos costurados nas memórias.
E, atravessando o encantamento: revisionismo, grupos de WhatsApp, negacionismo, baixos salários, anticientificismo, hipocrisia.
E a docência ainda pulsa!
A docência ainda pulsa!

Ela foi a primeira da família a entrar em uma universidade pública.
Entrou pelas cotas. No primeiro dia, atravessou o portão tentando parecer menos assustada do que estava. Havia prédios que não conhecia e gente que parecia saber exatamente aonde ir. Por algum tempo, carregou uma pergunta incômoda e silenciosa:
“Será que este lugar é mesmo para mim?”
Até encontrar a Cláudia — a professora que ensinava que pesquisar era método, técnica… Era caminho. Um dia, depois de ler um trabalho seu, ela perguntou:
— Você já pensou em fazer pesquisa?
Não. Ela nunca tinha pensado. Talvez porque ninguém, até então, tivesse lhe dito que uma menina como ela também podia fazer perguntas para as quais ainda não existiam respostas. E foi assim que vieram as teorias, as práticas e os docentes — que fizeram o mundo dela ganhar asas.
E veio o grupo de pesquisa. A extensão. A primeira bolsa. A primeira monitoria. O primeiro congresso. O texto escrito, apagado, reescrito. A primeira vez que alguém a apresentou dizendo:
— Esta é minha orientanda.
E aquele lugar, antes tão grande, começou a caber nela. Ou talvez tenha sido ela que descobriu que sempre coube ali. O mundo, outra vez, ficou maior.
Atravessar aquele portão foi, então, mais do que entrar — foi desfazer uma fronteira invisível. Foi ali que ela entendeu Bourdieu: a violência simbólica não precisa gritar; ela se naturaliza — e pode agir fazendo alguém duvidar, em silêncio, do próprio direito de ocupar um lugar.
Oportunidade. Reconhecimento. Formação. Experiência. Profissão. Saberes construindo futuros.
E, ameaçando os saberes: cortes, sucateamento, controle, ataques à liberdade de cátedra, ataques à autonomia, paralisia.
E a docência ainda pulsa!
A docência ainda pulsa!

Agora, puxe um fio da memória…
Há na sua memória uma carteira. Um pátio. Uma fila. Uma letra desenhada no quadro. Uma voz dizendo seu nome. Continue puxando os fios… Passe pelos corredores da adolescência. Há uma prova que deu medo. A bagunça correndo na sala. O grupo do fundão e os sabichões vidrados no quadro. Um livro rabiscado. Uma experiência. Uma pergunta. Uma bronca que, muitos anos depois, você finalmente entendeu.
E há nomes. Sempre há nomes: Dona Ilka, Tia Terezinha, Prof. Alberto, Prof. Chicão, Prof.ª Beth, Prof. Falves, Prof. Mozart, Prof.ª Maria Cláudia, Prof. Luiz Cláudio, Prof. Tuim, Prof. Rubem, Prof.ª Maria Helena, Prof. Raul, Prof. Gilberto, Prof.ª Jane, Prof. Marcus, Prof. Octávio, Prof. Jessé…
Talvez você tenha esquecido muitas coisas que eles ensinaram. Mas quase ninguém atravessa uma vida inteira sem guardar um professor em algum lugar da memória.
Todo mundo se lembra da professora que o ensinou a ver o mundo com outras lentes. Da docente que percebeu que você gostava de escrever. Do professor que colocou um livro na sua mão. Daquela que viu no seu desenho um talento. Do professor que apontou para o céu, para uma célula, para um mapa, para um movimento, para um poema, para uma desigualdade, para uma equação, para um sentimento — e disse, de tantas maneiras diferentes: “Olhe de novo.”
Talvez seja isso que um professor faça.
Ensine alguém a se apropriar de linguagens e outras línguas, de outros povos, lugares e culturas. Ensine alguém a estranhar, duvidar, formular. Ensine alguém a esperançar. Ensine alguém a olhar de novo — para uma palavra, para um número, para o próprio corpo, para o outro, para o passado, para aquilo que chamamos de verdade, para o mundo. E, às vezes, para si mesmo.
Por isso, talvez incomode tanto. Porque há muito tempo tentam fechar as janelas que docentes insistem em continuar abrindo.
Ainda assim, amanhã uma criança vai entrar em uma escola carregando uma mochila grande demais para as costas. Em algum momento do dia, seus olhos vão se arregalar diante de alguma descoberta. Ela chegará em casa querendo contar.
Uma menina vai levar uma pergunta para a mesa do jantar e vai bagunçar as certezas.
Uma jovem vai atravessar os portões de uma universidade pública e descobrir que aquele lugar também é seu.
E, em algum ponto dessas histórias, haverá um nome. Nomes escritos a giz na memória das pessoas. Nomes que talvez nunca apareçam nos livros de História — mas sem os quais muitas histórias jamais teriam sido escritas.
Apesar dos ataques. Apesar do ruído. Apesar daqueles que preferem fios cortados…
Há um cheiro de livro novo e um desconforto gostoso nas costas, só de lembrar da mochila pesada de sonhos que você ainda não sonhava…
Porque alguém ainda ensina uma criança a ler. Alguém ainda ensina um jovem a duvidar. E um outro alguém a fazer ciência. Porque a docência ainda pulsa. Ainda pulsa!

Livre adaptação da música “O Pulso”, dos Titãs.
Os nomes que aparecem no texto são de docentes que passaram pela minha vida, e seus nomes foram preservados.
Dedico este texto a todos os meus professores, que um dia me ensinaram a ampliar meus mundos; a todos a todas as minhas colegas docentes e os meus colegas docentes; e, ainda, às docentes e aos docentes em formação.
A docência ainda pulsa! Ainda pulsa!

Sobre Giselle Moraes Moreira

Sou Giselle…e Moraes Moreira — Moraes de mãe, Moreira de pai — sobrenome de cantor da MPB. Sou gêmea e, desde pequena, precisei aprender que o mundo seria necessariamente compartilhado. Irmã de mais quatro. Mineira, nativa de Juiz de Fora. Cresci na cidade que se tece entre morros e memórias, tragédias e encantamentos, torresmo e bares, boa música e ciência bem-feita, pública e para muitos. Aprendi que sociologia é também conversa de boteco, o porquê de tomarmos a cerveja gelada e sobre pratos que não gosto de lavar. Não trago certezas, trago um olhar: nem puramente acadêmico, nem meramente casual. Sou socióloga e bacharel em Ciência Política, pra compreender sobre Ser e Poder; pós-graduada em Estatística, pra desconfiar dos números; e em Marketing e Negócios, pra confrontar os desejos; mestre em Antropologia do Corpo, porque o corpo é o primeiro lugar onde a política acontece. Sou professora, ensino e aprendo que somos costurados de sociabilidades e muita circunstância…

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