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Eleições 2026, Política

Lula responde a ataques e Flávio Bolsonaro acumula declarações falsas no último debate da Globo

Por Redação
Publicado em 24/10/2026
às 15:34
Flávio Bolsonaro e Lula se enfrentaram no último debate das eleições presidenciais deste ano, na TV Globo.

O último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite de sexta-feira (23), na TV Globo, terminou com um contraste importante para o eleitor: enquanto o presidente procurou explorar a trajetória dos dois candidatos e questionar o adversário sobre temas como educação e trabalho, o senador recorreu a acusações e declarações que foram desmentidas por checagens independentes.

A verificação das falas revelou que algumas das afirmações mais contundentes de Flávio foram classificadas como falsas pelo UOL Confere. Entre elas, alegações sobre obras paralisadas, a suposta defesa de Lula de que ladrões roubariam para comprar cerveja e a existência de um relatório da Polícia Federal que o inocentaria em uma investigação relacionada ao financiamento de um filme.

O desempenho de Lula também recebeu avaliações positivas de analistas políticos. Especialistas ouvidos pelo Terra apontaram vantagem do presidente, especialmente na parte final do encontro, embora tenham ressaltado que Flávio apresentou uma postura mais controlada do que no debate anterior.

Checagem expõe informações falsas usadas por Flávio

Um dos principais pontos de atenção do debate foi a quantidade de declarações que não resistiram à verificação dos fatos.

Segundo o UOL Confere, Flávio afirmou que existiam mais de 11,5 mil obras paralisadas no governo Lula, atribuindo o dado a um relatório recente do Tribunal de Contas da União (TCU). A checagem classificou a afirmação como falsa: o painel do tribunal, atualizado em julho de 2026, registrava 4.215 obras paradas. O número superior a 11,5 mil correspondia a um levantamento divulgado em 2025, e não ao dado atual apresentado pelo senador.

Outro exemplo foi a acusação de que Lula teria dito que criminosos roubam celulares para comprar cerveja. O UOL também classificou a declaração como falsa. A frase atribuída ao presidente é uma distorção antiga de uma fala sobre rivalidade entre torcidas de futebol, cujo contexto original tratava da possibilidade de torcedores adversários conviverem pacificamente depois dos jogos.

Flávio também afirmou que Jair Bolsonaro não teria debochado de pessoas com falta de ar durante a pandemia de Covid-19. De acordo com a checagem, a gravação integral de uma transmissão de março de 2021 mostra o ex-presidente imitando uma pessoa com dificuldade para respirar ao criticar orientações sanitárias. O UOL classificou a negativa do senador como falsa.

Esses episódios são relevantes porque mostram como a repetição de acusações pode produzir uma impressão política mesmo quando os fatos apresentados não correspondem aos registros disponíveis. Em uma eleição decidida voto a voto, a capacidade de distinguir crítica legítima de informação falsa torna-se parte central do debate democrático.

Flávio concentrou acusações, mas parte delas não se sustentou

A checagem do debate reforçou uma diferença importante entre questionar o governo e apresentar informações incorretas como se fossem fatos comprovados.

Ao falar sobre o financiamento do filme Dark Horse, que retrata Jair Bolsonaro, Flávio declarou que a Polícia Federal teria produzido um relatório confirmando a regularidade dos recursos. O UOL Confere classificou a afirmação como falsa: segundo a publicação, não havia relatório da PF com as conclusões descritas pelo senador, e o financiamento era alvo de investigações. A existência de uma investigação, por sua vez, não significa que tenha havido condenação ou que as suspeitas estejam comprovadas.

O senador também atribuiu a Lula a responsabilidade pela expansão dos jogos de apostas on-line. A checagem do UOL classificou essa declaração como enganosa: a legislação que autorizou as apostas de quota fixa foi aprovada em 2018, durante o governo Michel Temer, enquanto a regulamentação posterior envolveu outras etapas legislativas e decisões de diferentes governos.

Os episódios ajudam a compreender a estratégia adotada pelo candidato do PL: associar o governo petista a problemas econômicos e sociais por meio de acusações diretas. A estratégia pode ter impacto retórico, mas perde força quando os argumentos dependem de informações antigas, distorcidas ou apresentadas sem o contexto necessário.

Quem mentiu mais no debate?

As verificações publicadas neste sábado (24) apontam um volume expressivo de informações problemáticas, especialmente em declarações de Flávio Bolsonaro.

A Folha de S.Paulo publicou uma análise da Agência Lupa segundo a qual, entre 35 frases examinadas, 20 eram falsas, exageradas ou estavam fora de contexto. Onze foram consideradas totalmente verdadeiras. O levantamento, entretanto, não deve ser interpretado como um placar definitivo de quem mentiu mais, porque reúne declarações dos dois candidatos e não estabelece, nessa contagem, uma divisão completa por concorrente.

O UOL Confere, por sua vez, identificou diversas afirmações falsas atribuídas a Flávio, incluindo as declarações sobre as obras paralisadas, a fala de Lula sobre cerveja e a suposta conclusão de um relatório policial sobre o filme de Jair Bolsonaro.

Portanto, há evidências documentadas de que Flávio Bolsonaro apresentou repetidas informações falsas durante o debate, mas não é rigoroso afirmar que ele foi definitivamente o candidato que mais mentiu sem uma contagem comparativa completa, com critérios iguais para os dois lados.

Para o eleitor, o dado mais relevante não é apenas a quantidade de declarações incorretas, mas a gravidade de cada uma e a forma como podem distorcer a compreensão de temas como segurança pública, economia e investigações policiais.

Lula transforma episódio dos “nove dedos” em contraste sobre trabalho

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Um dos momentos de maior repercussão foi a referência de Flávio à perda de um dedo da mão esquerda de Lula. O presidente sofreu o acidente quando trabalhava como torneiro mecânico, ainda jovem.

A provocação levou Lula a recuperar um elemento central de sua trajetória política: a experiência como trabalhador metalúrgico antes de chegar à Presidência. O episódio permitiu ao petista contrastar sua história profissional com a do adversário e questionar o tom adotado pelo senador.

Segundo a análise de especialistas ouvidos pelo Terra, a professora de Ciência Política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avaliou que o episódio favoreceu Lula ao colocar a discussão no campo das relações de classe e do trabalho. O senador acabou pedindo desculpas pela referência.

O momento também mostrou como uma provocação pessoal pode produzir um efeito contrário ao pretendido. Em vez de enfraquecer o presidente, a fala abriu espaço para que ele retomasse sua história de vida e se apresentasse como alguém cuja trajetória está ligada à realidade de trabalhadores brasileiros.

Economia e políticas sociais ficaram no centro da disputa

A economia foi um dos temas mais explorados por Flávio, que mencionou preços, endividamento e dificuldades das famílias. A abordagem procurou aproximar o discurso eleitoral de preocupações cotidianas, como o custo dos alimentos e o peso das contas no orçamento doméstico.

Lula, por outro lado, precisou defender os resultados de seu governo e responder às críticas. O presidente também buscou questionar o adversário sobre educação e sua trajetória, especialmente na parte final do encontro.

A análise do Terra identificou avaliações distintas sobre o desempenho dos candidatos. Para parte dos especialistas ouvidos pelo veículo, Lula teve vantagem no encerramento, enquanto outros consideraram que Flávio demonstrou evolução em relação ao debate anterior, sobretudo por adotar uma postura menos agressiva. Não houve consenso de que o confronto, isoladamente, seria capaz de alterar de maneira decisiva a disputa eleitoral.

A discussão econômica exige atenção especial porque números verdadeiros também podem ser apresentados de maneira incompleta. No debate, por exemplo, o UOL classificou como enganosa a afirmação de Flávio de que o governo Bolsonaro havia elevado o benefício social para R$ 600 de forma permanente. O valor foi elevado naquele período, mas a manutenção não estava prevista na proposta orçamentária enviada para 2023.

Isso não elimina os problemas econômicos enfrentados pelas famílias nem dispensa o governo Lula de responder por seus resultados. Significa, porém, que a comparação entre gestões precisa considerar a duração das medidas, os valores efetivamente pagos e as decisões orçamentárias de cada período.

O que o debate representa para o segundo turno

O confronto na Globo foi a última oportunidade de Lula e Flávio apresentarem seus argumentos diretamente ao eleitor antes da votação deste domingo (25). Mais do que os momentos de confronto pessoal, o encontro colocou em evidência duas questões centrais: a capacidade de cada candidato de defender seu projeto para o país e a confiabilidade das informações utilizadas para atacar o adversário.

Para Lula, a possibilidade de recuperar sua trajetória de trabalhador e questionar as declarações do senador ajudou a construir uma defesa política que ultrapassou a discussão sobre números econômicos. Para Flávio, a insistência em acusações que foram desmentidas por verificadores independentes representou um problema para a credibilidade de parte de seu discurso.

O resultado eleitoral ainda dependerá de fatores que não podem ser medidos apenas pela performance televisiva, como a avaliação dos governos, as preocupações econômicas, a segurança pública e as preferências já consolidadas do eleitorado.

A principal conclusão é que o debate não deve ser avaliado somente por quem teve a frase mais contundente ou o melhor desempenho diante das câmeras. A qualidade dos argumentos, a precisão dos dados e a disposição para responder a questionamentos concretos também são critérios fundamentais para julgar quem está mais preparado para governar.

No caso do confronto de sexta-feira, as checagens documentaram diversas afirmações falsas de Flávio Bolsonaro, enquanto as análises políticas apontaram que Lula conseguiu aproveitar momentos importantes do encontro para defender sua trajetória e pressionar o adversário. A combinação desses fatores favoreceu a argumentação do presidente, embora não permita declarar antecipadamente quem vencerá nas urnas.

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