Documentos divulgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na quinta-feira (10) apontam que uma auditoria interna da Polícia Federal identificou acessos considerados indevidos a sistemas restritos da corporação realizados a partir da unidade da PF em Juiz de Fora. Segundo os autos, as consultas estariam relacionadas a informações da Operação Compliance Zero e a pessoas investigadas no caso envolvendo o Banco Master.
As investigações apontam a existência de um grupo formado por seis policiais federais, identificado como “A turma”. O grupo teria sido coordenado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, que teve Juiz de Fora como sua última lotação na corporação.
De acordo com os documentos, os integrantes teriam utilizado sistemas de acesso exclusivo da Polícia Federal para levantar dados sobre investigações, inquéritos e processos, inclusive aqueles submetidos a sigilo. As informações, conforme a investigação, seriam obtidas de acordo com interesses atribuídos ao fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Os investigadores também apontam que o grupo teria realizado consultas sobre pessoas físicas e empresas, além de ações destinadas a pressionar ou intimidar indivíduos que fossem considerados contrários aos interesses de Vorcaro.
Dados sigilosos teriam antecipado ações da investigação
Ainda segundo os autos, o acesso a informações internas da Polícia Federal teria permitido ao grupo acompanhar antecipadamente movimentos das equipes responsáveis pelas investigações.
A suspeita é de que os dados obtidos ilegalmente tenham sido utilizados para elaborar estratégias de proteção a Vorcaro, acompanhar pessoas consideradas adversárias do banco e exercer pressão sobre possíveis testemunhas.
O relatório policial também descreve uma atuação considerada sofisticada e abrangente. Segundo a investigação, o grupo teria conseguido alcançar informações de órgãos policiais estrangeiros, incluindo referências ao FBI, dos Estados Unidos, e à Interpol.
Grupo teria recebido R$ 400 mil por mês
As investigações também identificaram uma suposta estrutura financeira destinada a remunerar integrantes do grupo. Conforme os documentos, “A turma” receberia aproximadamente R$ 400 mil mensais da King Participações Imobiliárias Ltda.
Os repasses estariam inseridos em uma estrutura financeira mais ampla. Segundo a investigação, a Super Empreendimentos e Participações S.A. teria realizado pagamentos de aproximadamente R$ 1 milhão por mês à King Participações Imobiliárias Ltda., empresa ligada a Felipe Mourão, apontado nos autos como um dos operadores de Vorcaro.
Parte desse dinheiro seria distribuída entre diferentes grupos supostamente cooptados por Mourão. “A turma” teria direito a 40% do valor mensal, quantia que seria repartida entre seus seis integrantes.
Marilson Roseno da Silva é apontado como o principal interlocutor do grupo junto a Felipe Mourão e Daniel Vorcaro.
Consultas teriam relação com a Operação Compliance Zero
Entre as informações que teriam sido obtidas por meio dos acessos investigados estavam dados relacionados à Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 18 de novembro de 2025.
A investigação sustenta que Vorcaro teria recorrido a acessos considerados ilícitos para acompanhar informações sigilosas referentes à apuração.
O empresário foi preso na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. No dia seguinte, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero.
A reportagem procurou a Polícia Federal para obter esclarecimentos sobre os acessos identificados a partir da unidade de Juiz de Fora. Também foi buscado contato com o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Até a publicação, não houve retorno.
Os demais citados nas investigações também podem se manifestar sobre as acusações.