Unidades filantrópicas alegam falta de recursos e alertam para risco de desabastecimento e dificuldades para pagamento de funcionários; urgências e emergências continuam funcionando
O atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta um cenário de tensão em Juiz de Fora após hospitais filantrópicos anunciarem a suspensão parcial de atividades nesta sexta-feira (2). As instituições afirmam que a medida está relacionada a problemas nos repasses financeiros destinados à manutenção dos serviços.
A paralisação atinge a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, o Hospital Ana Nery, o Hospital São Vicente de Paulo, o Hospital 9 de Julho e a Ascomcer.
Segundo o Sindicato dos Hospitais de Juiz de Fora, os recursos são necessários para garantir o funcionamento das unidades e a compra de insumos. A entidade alerta que a continuidade do impasse pode provocar dificuldades, principalmente no fornecimento de medicamentos e outros materiais utilizados no atendimento aos pacientes.
Apesar da suspensão parcial das atividades, os serviços de urgência e emergência devem permanecer funcionando, conforme recomendação do Ministério Público.
O sindicato também afirma que a situação pode se agravar na próxima semana. Segundo a entidade, existe o risco de as instituições enfrentarem dificuldades para quitar a folha de pagamento dos funcionários caso os recursos não sejam regularizados.
Impasse coloca rede hospitalar sob pressão
A situação expõe um problema que ultrapassa a suspensão pontual de procedimentos. As instituições filantrópicas têm papel importante na assistência hospitalar pelo SUS em Juiz de Fora e concentram parte significativa dos atendimentos realizados na cidade.
Com os hospitais relatando dificuldades financeiras, o temor é de que o problema avance para outras áreas, afetando a disponibilidade de medicamentos, materiais hospitalares e serviços oferecidos aos pacientes.
A situação também mobilizou os trabalhadores da saúde.
Sindsaúde aciona Ministério Público
O Sindicato dos Trabalhadores em Serviços de Saúde de Juiz de Fora (Sindsaúde-JF) levou o caso ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e solicitou providências diante das pendências financeiras apontadas em diferentes unidades hospitalares.
Segundo a entidade, a situação envolve recursos de diferentes fontes de financiamento da assistência hospitalar, inclusive valores destinados ao atendimento de pacientes do SUS.
O sindicato afirma que pretende obter a regularização dos pagamentos e a apuração das pendências existentes nos repasses às instituições.
Santa Casa aponta mais de R$ 15 milhões pendentes
Um dos casos apresentados é o da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora. De acordo com informações fornecidas pela própria instituição, havia R$ 15.048.274,95 pendentes em 23 de setembro de 2026.
Desse total, R$ 12.984.748,09 seriam recursos federais, enquanto R$ 2.063.526,86 corresponderiam a recursos estaduais.
A Santa Casa explica que os recursos utilizados no financiamento do atendimento aos pacientes do SUS têm origem nos governos federal e estadual e são encaminhados à instituição por meio da Prefeitura de Juiz de Fora.
O Sindsaúde-JF sustenta que o problema não estaria restrito à Santa Casa e que outras unidades também enfrentariam dificuldades relacionadas aos repasses.
Prefeitura nega existência de pendências
Procurada sobre a situação, a Prefeitura de Juiz de Fora afirma que não possui nenhuma pendência com os prestadores de serviços de saúde.
De acordo com o Executivo, eventuais divergências de interpretação estão sendo discutidas com a mediação do Ministério Público. Ainda segundo a Prefeitura, o mês de novembro foi estabelecido como prazo final para a resolução da questão.
A Administração Municipal também afirma que permanece aberta ao diálogo para buscar uma solução para o impasse.
Serviços municipais devem continuar funcionando
Mesmo com a paralisação parcial anunciada pelas instituições filantrópicas, serviços públicos municipais devem manter o atendimento normalmente.
De acordo com informações divulgadas pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Juiz de Fora (Sinserpu), devem funcionar normalmente o Hospital de Pronto-Socorro (HPS), o Pronto-Atendimento Infantil (PAI), a UPA Regional Leste e o Departamento de Internação Domiciliar (DID).
O atendimento pelo SUS também deve continuar no Hospital Regional João Penido e no Hospital Universitário.
O cenário, portanto, não representa a paralisação completa da rede pública de saúde de Juiz de Fora. No entanto, a suspensão parcial de atividades em seis instituições filantrópicas coloca pressão sobre uma estrutura que também atende pacientes encaminhados pelo SUS.
JF Diário questiona Prefeitura
O JF Diário questionou a Prefeitura de Juiz de Fora sobre os repasses aos hospitais, os valores apontados pelas instituições e pelos sindicatos, as eventuais pendências existentes e o cronograma para regularização dos pagamentos.
A Prefeitura respondeu que não reconhece a existência de pendências com os prestadores e que o assunto está sendo tratado com mediação do Ministério Público.
O espaço permanece aberto para novos esclarecimentos do Executivo municipal, das instituições hospitalares e das entidades que representam os trabalhadores.