Chuva já provocou 24 ocorrências em apenas 24 horas; acumulados passam de 45 milímetros em vários pontos; Cemaden aponta risco alto de movimentos de massa e alerta para novos impactos
Juiz de Fora atravessa um novo fim de semana marcado pelo medo da chuva. Desde quinta-feira (1º), temporais vêm atingindo diferentes regiões do município, provocando alagamentos, escorregamentos de taludes, destelhamentos e danos em imóveis. Em apenas 24 horas, a Defesa Civil registrou 24 ocorrências relacionadas às chuvas — uma média de uma ocorrência a cada hora.
E o cenário ainda está longe de ser considerado encerrado.
A combinação entre os volumes já registrados, a continuidade das precipitações e a existência de áreas naturalmente suscetíveis transforma cada nova pancada de chuva em um fator de preocupação. A Defesa Civil mantém alerta para risco de deslizamentos até a manhã de segunda-feira (5).
O alerta ganha ainda mais peso diante da avaliação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). No boletim divulgado para este sábado (3), o órgão classificou como alta a possibilidade de ocorrência de movimentos de massa na Região Geográfica Intermediária de Juiz de Fora, devido à presença de áreas com alta suscetibilidade a deslizamentos e à previsão de chuva persistente, intercalada por pancadas de forte intensidade.
O Cemaden também trabalha com possibilidade de impactos hidrológicos na região. No boletim de risco para este sábado, Juiz de Fora chegou a ser incluída entre as áreas com alta possibilidade de eventos hidrológicos, considerando os acumulados prévios e a previsão de novas pancadas fortes, capazes de favorecer enxurradas, alagamentos e extravasamentos pontuais de córregos.
Uma cidade que não consegue baixar a guarda
O que preocupa não é apenas a chuva que ainda pode cair. É a combinação entre água acumulada, solo encharcado e novos temporais.
Nas últimas 24 horas, os pluviômetros monitorados pela Defesa Civil registraram volumes expressivos em praticamente todas as regiões de Juiz de Fora. O maior acumulado informado foi de 48,13 milímetros em Nossa Senhora de Lourdes.
Também foram registrados:
- Centro: 46,19 mm;
- Monte Castelo: 45,34 mm;
- Represa João Penido: 45,21 mm;
- Floresta: 44,41 mm;
- Ponte Preta: 43,84 mm;
- São Judas Tadeu: 43,45 mm;
- Milho Branco: 43,06 mm;
- Grama: 42,46 mm;
- São Pedro: 41,49 mm;
- Aeroporto: 38,72 mm;
- Distrito Industrial: 38,53 mm;
- Santa Efigênia: 33,25 mm.
A distribuição dos volumes mostra que o problema não está restrito a um único bairro ou região. A água atingiu praticamente toda a cidade, aumentando a pressão sobre sistemas de drenagem e, principalmente, sobre terrenos já saturados.
Uma ocorrência a cada hora
O número de chamados da Defesa Civil ajuda a dimensionar a dimensão do problema.
Foram 24 ocorrências em 24 horas.
Na prática, isso significa que, em média, a cada hora uma nova situação provocada ou relacionada à chuva chegou ao conhecimento da Defesa Civil.
Entre os registros estão:
escorregamentos de talude, alagamentos, trincas em pisos e destelhamentos.
O registro de movimentação de talude é particularmente preocupante porque ocorre justamente em um momento em que os órgãos de monitoramento apontam risco elevado de movimentos de massa.
Não significa que uma grande quantidade de deslizamentos necessariamente ocorrerá. Significa que as condições ambientais são suficientemente favoráveis para que episódios desse tipo aconteçam em pontos vulneráveis.
E, em uma cidade marcada por encostas e áreas suscetíveis, essa diferença é fundamental.
Cemaden coloca Juiz de Fora no mapa de maior preocupação
O boletim mais recente do Cemaden coloca Juiz de Fora entre as regiões da Zona da Mata que exigem atenção especial neste sábado.
Para os movimentos de massa, a classificação é ALTA. O órgão considera que a combinação de áreas com alta suscetibilidade a deslizamentos e chuva persistente, com possibilidade de pancadas fortes, pode provocar deslizamentos em encostas vulneráveis.
O briefing conjunto Cemaden/Cenad divulgado neste sábado também reforça a preocupação. Segundo o documento, o risco de deslizamentos continua se elevando na Região Sudeste, com destaque, em Minas Gerais, para a Zona da Mata e a região de Juiz de Fora.
Para os riscos hidrológicos, os boletins apontam possibilidade de extravasamento de córregos, enxurradas e alagamentos urbanos em razão dos acumulados anteriores e da possibilidade de novas pancadas fortes.
O solo encharcado é uma das maiores ameaças
Existe uma diferença importante entre uma chuva forte isolada e uma sequência de dias de chuva.
Quando a precipitação se repete, a água penetra no terreno e aumenta a umidade do solo. Em encostas vulneráveis, esse processo pode reduzir a estabilidade do terreno.
É por isso que o alerta permanece mesmo nos períodos em que a chuva dá uma trégua.
O perigo não está apenas na água que cai naquele momento. Está também na água que já entrou no solo.
O Cemaden explica que as condições de chuva persistente podem gerar acumulados suficientes para deflagrar deslizamentos pontuais em encostas com alta suscetibilidade.
Alerta meteorológico aumenta preocupação
A situação meteorológica também exige atenção.
O Inmet emitiu alerta para acumulados elevados de chuva na região. Informações divulgadas sobre o aviso indicam possibilidade de volumes que podem chegar a 100 milímetros em 24 horas, com risco de alagamentos, deslizamentos e transbordamentos em áreas vulneráveis.
O instituto também explicou que a instabilidade no início de outubro está associada à passagem de uma frente fria e à atuação de sistemas que mantêm o tempo instável no Sudeste, com possibilidade de chuva, trovoadas e granizo em determinadas áreas. Esse período chuvoso está sob o efeito do Super El Niño. Foi o setembro mais chuvoso desde 1983 e, em apenas três dias de outubro, Juiz de Fora já atingiu a média de chuva esperada para todo o mês.
A Defesa Civil registrou 15 ocorrências, a maioria em áreas que já estavam interditadas por risco constatado.
Ou seja: o problema não é apenas o temporal que já passou. Há possibilidade de novos episódios de chuva forte enquanto a cidade ainda absorve os impactos das precipitações anteriores.
Rio Paraibuna também é monitorado
Outro fator de atenção informado pela Defesa Civil é o nível do Rio Paraibuna, que chegou a 2,66 metros na região próxima ao bairro Santa Terezinha.
Esse número, isoladamente, não representa necessariamente transbordamento. O risco precisa ser analisado em conjunto com a chuva prevista, os acumulados anteriores e o comportamento dos córregos e demais cursos d’água.
É justamente esse conjunto que levou os órgãos de monitoramento a manter Juiz de Fora no radar de possíveis impactos hidrológicos.
Em cenários de chuva intensa, a elevação rápida de córregos e canais pode provocar alagamentos e enxurradas em pouco tempo.
A cidade ainda carrega as marcas do desastre de fevereiro
O momento atual também acontece meses depois de um dos episódios mais graves da história recente de Juiz de Fora.
Em fevereiro, o município enfrentou chuvas extremas que provocaram mortes, deslizamentos, alagamentos e levaram a Prefeitura a decretar estado de calamidade pública. O decreto municipal classificou o evento como tempestade local convectiva associada a chuvas intensas.
O episódio deixou uma marca profunda na cidade e mostrou, de maneira dramática, como a combinação entre chuva intensa, relevo e ocupação urbana pode produzir consequências graves.
Agora, meses depois, uma nova sequência de temporais coloca novamente moradores de áreas vulneráveis em estado de alerta.
Isso não significa que o atual episódio tenha a mesma dimensão do desastre de fevereiro. Mas significa que os sinais de risco estão novamente presentes e que a cidade não pode tratar as novas chuvas como um evento comum.
Fim de semana eleitoral terá deslocamentos sob chuva
A situação acontece justamente no fim de semana do primeiro turno das eleições gerais.
Neste domingo (4), milhares de pessoas precisarão circular por Juiz de Fora para chegar aos locais de votação. A previsão de chuva aumenta a necessidade de atenção nas ruas, principalmente em áreas sujeitas a alagamentos, enxurradas, quedas de árvores e deslizamentos.
Prefeitura mantém sala de monitoramento em alerta
Enquanto a chuva continua atingindo diferentes regiões de Juiz de Fora, a sala de monitoramento da Defesa Civil, instalada na Prefeitura, permanece em estado de alerta, acompanhando a evolução das condições meteorológicas e os impactos provocados pelas precipitações.
A movimentação também chegou ao gabinete da prefeita Margarida Salomão. Na tarde deste sábado (3), a prefeita publicou um vídeo em suas redes sociais mostrando que estava na estrutura de monitoramento da Prefeitura, acompanhando a situação da cidade junto às equipes responsáveis pela resposta às ocorrências.
A presença da prefeita no local ocorre em um momento de atenção reforçada: A Prefeitura poderá anunciar novas medidas de prevenção, atendimento ou resposta às ocorrências caso a situação evolua nas próximas horas. Até o momento, a administração municipal mantém as equipes de monitoramento e atendimento mobilizadas.
A estrutura de monitoramento tem papel central na resposta do município a eventos extremos. Em março deste ano, o Ministério Público de Minas Gerais destacou a necessidade de funcionamento permanente de uma instância de comando e controle para situações de emergência e registrou a atuação da sala de monitoramento da Defesa Civil Municipal na articulação das ações.
A preocupação é reforçada pelos avisos meteorológicos vigentes. Para este sábado (3), há previsão de chuva volumosa na Zona da Mata, com possibilidade de alagamentos, deslizamentos de encostas e transbordamentos de rios. Um dos avisos do Inmet prevê volumes superiores a 100 milímetros em 24 horas em áreas abrangidas pelo alerta mais severo.
Com o solo já saturado pela sequência de chuvas e novos volumes ainda previstos, o monitoramento permanece concentrado principalmente em áreas de encosta, pontos sujeitos a alagamentos e cursos d’água.
A orientação aos moradores é acompanhar os canais oficiais da Prefeitura e da Defesa Civil e, diante de qualquer sinal de movimentação de terreno, rachaduras, estalos ou risco imediato, deixar o local e buscar uma área segura.
Vídeo publicado pela Prefeitura de Juiz de Fora no instagram: