Catolicismo, Umbanda, Espiritismo, Candomblé, Judaísmo e Islamismo apresentam diferentes formas de compreender a morte, preservar a memória e enfrentar a saudade. Em Juiz de Fora, a diversidade religiosa também se manifesta nos rituais de despedida e nas homenagens aos que partiram.
O Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira (2), é tradicionalmente associado às missas, às visitas aos cemitérios e à colocação de flores nos túmulos. Em Juiz de Fora, milhares de pessoas aproveitam a data para homenagear familiares e amigos que já morreram. Mas nem todas as religiões compreendem a morte da mesma maneira, e os rituais de despedida e lembrança também variam de acordo com cada tradição.
Enquanto para os católicos a data está relacionada à oração pelos falecidos e à esperança na ressurreição, no Espiritismo a morte representa a passagem do espírito para outra dimensão da existência. Nas religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, a ancestralidade ocupa um lugar importante na relação entre os vivos, os antepassados e a espiritualidade.
Há também tradições religiosas que não reconhecem o dia 2 de novembro como uma celebração própria, mas mantêm práticas específicas de respeito e memória aos falecidos.
A diversidade dessas crenças faz de Finados uma oportunidade para conhecer diferentes maneiras de lidar com uma experiência que atravessa todas as famílias: a perda de alguém querido.
Catolicismo: oração, ressurreição e esperança no reencontro
Para a Igreja Católica, a morte não representa o fim definitivo da existência. A crença na ressurreição de Jesus Cristo fundamenta a esperança de que a vida continua junto de Deus.
O Dia de Finados é dedicado especialmente à oração pelos fiéis falecidos. A data também convida à reflexão sobre a saudade, a importância dos vínculos familiares e a esperança na vida eterna.
Entre as tradições católicas mais conhecidas estão as missas em intenção dos falecidos, as visitas aos cemitérios, as orações diante dos túmulos e a colocação de flores e velas.
Em Juiz de Fora, a Arquidiocese mantém uma programação especial para a data. Em 2026, estão previstas celebrações no Cemitério Municipal, às 8h, 10h, 13h e 15h, e no Cemitério Parque da Saudade, às 11h e às 14h. A celebração das 11h no Parque da Saudade será presidida pelo arcebispo metropolitano, Dom Marco Aurélio Gubiotti.
Para os católicos, visitar o túmulo de alguém querido é uma maneira de preservar a memória e demonstrar carinho, enquanto a oração representa a entrega daquela pessoa à misericórdia de Deus.
Umbanda: ancestralidade, espiritualidade e respeito aos que partiram
Nas religiões de matriz africana, a relação com a ancestralidade tem grande importância. Na Umbanda, a compreensão da morte e da continuidade espiritual está ligada à existência dos espíritos e à possibilidade de evolução.
A morte do corpo físico não significa necessariamente o desaparecimento da existência espiritual. A forma como esse processo é compreendido e os rituais realizados podem variar entre as diferentes casas e vertentes da Umbanda.
A ancestralidade também aparece na valorização dos ensinamentos transmitidos por gerações anteriores e na presença de entidades espirituais, como caboclos e pretos-velhos, que ocupam lugar importante na tradição umbandista.
O cemitério, nesse contexto, não é necessariamente visto apenas como um espaço de tristeza. Pesquisas acadêmicas sobre a Umbanda mostram que esses locais também podem assumir significado religioso e simbólico, relacionados às entidades e às práticas espirituais.
Em Juiz de Fora, a história da Umbanda e do Candomblé tem raízes importantes. A pesquisadora Maria da Graça Floriano dedicou mais de 15 anos ao estudo dessas tradições na cidade. Seu trabalho deu origem ao livro Canjerê, umbanda e candomblé em Juiz de Fora, que recupera histórias de comunidades religiosas e lideranças que ajudaram a preservar essas manifestações ao longo do século XX.
A transmissão oral é uma característica importante dessa memória. Histórias, ensinamentos, experiências e tradições são compartilhados entre gerações, mantendo viva a história das comunidades.
Isso também ajuda a compreender por que o respeito aos mais velhos e aos antepassados ocupa um lugar tão significativo nessas religiões.
Candomblé: a ancestralidade como parte da continuidade da vida
No Candomblé, a morte também está relacionada a uma compreensão própria da existência, da ancestralidade e da espiritualidade.
A relação com os antepassados é importante para a identidade religiosa e para a continuidade das tradições. Entretanto, não existe um único ritual que represente todas as comunidades: os procedimentos variam conforme a nação, a tradição, a hierarquia religiosa e os fundamentos de cada terreiro.
Em determinadas tradições, existem cerimônias específicas para a passagem de integrantes da comunidade religiosa. Esses ritos envolvem cuidados e fundamentos que nem sempre são públicos, devendo ser respeitados em sua dimensão sagrada.
A memória dos antepassados também é preservada por meio da oralidade, da transmissão dos conhecimentos religiosos, do respeito aos mais velhos e da manutenção dos costumes.
Em Juiz de Fora, a história dessas comunidades foi documentada em pesquisas acadêmicas e produções culturais. O documentário Vozes Ancestrais, lançado em 2025, percorreu terreiros da cidade e reuniu depoimentos de seis lideranças religiosas, abordando memória, resistência e enfrentamento ao racismo religioso.
A produção também destaca a importância de registrar histórias que, durante muito tempo, foram transmitidas principalmente pela palavra e pela experiência das próprias comunidades.
Espiritismo: a morte como desencarnação e continuidade da existência
Na Doutrina Espírita, a morte é compreendida como a separação entre o espírito e o corpo físico. O espírito continua existindo e passa a viver no chamado plano espiritual.
A crença na reencarnação também é um dos princípios fundamentais do Espiritismo. Segundo essa doutrina, a existência não se limita a uma única passagem pela vida material: o espírito passa por diferentes experiências e oportunidades de aprendizado e evolução.
Por isso, a morte é frequentemente chamada de desencarnação.
Entre os princípios espíritas estão a imortalidade da alma, a comunicação entre os planos espiritual e material e a evolução moral do espírito.
Nas casas espíritas, a lembrança dos falecidos pode ser acompanhada por orações, estudos, reflexões e momentos de vibração em favor daqueles que partiram. A prática da caridade também ocupa lugar central na doutrina.
A saudade, nessa perspectiva, não precisa ser entendida como uma ruptura definitiva. A crença na continuidade da vida espiritual oferece aos familiares a possibilidade de compreender a separação física como uma etapa de uma existência mais ampla.
Em Juiz de Fora, o Espiritismo possui uma trajetória histórica. A Aliança Municipal Espírita reúne instituições da cidade e integra uma estrutura de organização que também alcança as esferas estadual e nacional.
A Fundação Espírita Allan Kardec (FEAK), por exemplo, mantém atividades de estudo e divulgação da doutrina, abordando temas relacionados à vida espiritual, à reencarnação e à evolução dos espíritos.
Judaísmo: memória, respeito e tradições próprias
O Judaísmo também possui práticas específicas relacionadas à morte e ao luto. Entretanto, diferentemente do Catolicismo, não reconhece o dia 2 de novembro como uma data religiosa própria para homenagear os falecidos.
Entre as tradições judaicas está o Yahrzeit, a lembrança anual da data de falecimento de uma pessoa querida, conforme o calendário judaico. Nesse dia, familiares podem acender uma vela memorial, participar de orações e recordar a pessoa falecida.
Outro costume é o Kaddish, oração tradicionalmente associada ao período de luto e à memória dos mortos.
O processo de luto judaico também possui etapas e períodos específicos, como a Shivá, período de recolhimento e acolhimento da família após o sepultamento.
A preservação da memória dos familiares e antepassados é um elemento importante da tradição.
Em Juiz de Fora, a comunidade judaica mantém iniciativas de preservação de sua história. A Biblioteca Hebraica da cidade é um espaço dedicado à memória da imigração judaica, reunindo documentos, livros e objetos relacionados à trajetória dessa população na região.
Islamismo: respeito ao corpo e orações pelos falecidos
Para os muçulmanos, a morte representa a passagem desta vida para outra etapa da existência, marcada pela crença na ressurreição e no julgamento divino.
O corpo é tratado com respeito e dignidade. Entre as práticas tradicionais está o Janazah, oração fúnebre realizada pela comunidade antes