Costuras Sociológicas
Giselle Moraes Moreira
Meu pai era jornalista. Minha mãe, costureira.
Já a palavra “costura” vem do latim consure, que significa unir. Ela carrega o com “junto” e a sutura, o ato de alinhar tecidos com um fio.
A costura é uma das habilidades mais antigas da humanidade. Essencial à produção de vestimentas e à proteção do corpo, adquiriu, ao longo do tempo, outros significados: estéticos, culturais e sociais. Roupas passaram a revelar pertencimentos, distinções, conquistas sociais e modos de viver. Das primeiras agulhas feitas de ossos às modernas máquinas de costura, há fios tecidos que perpassam não apenas os corpos, mas transformações culturais, econômicas e tecnológicas.
“Costurar”, contudo, extrapola seu sentido literal. Também é dirigir um veículo em ziguezague, cortando caminhos. E significa, ainda, estabelecer, negociar, formar alianças e acordos, uma tentativa de encaixar elementos diversos em busca de um propósito comum. Costuramos caminhos, ideias, relações. Costuram-se acordos e alianças, às vezes em meio às (in)diferenças.
Talvez por isso eu goste tanto dessa palavra.
Tenho nas lembranças mais íntimas o barulhinho da máquina de costura da minha mãe, Cinira, que dedicava horas a esse ofício. Ela costurava não só panos: pés e mãos tecendo o tempo, costurava memórias. A Singer dela, com seus fios entrelaçados, sustentava sonhos e, com meu pai, sustentava a nossa casa e uma vida cheia de trabalho, de atravessamentos, mas também de muita esperança.
Acho que a Sociologia se parece um pouco com isso.
José Ortega y Gasset escreveu, em Meditações do Quixote: “Eu sou eu e minha circunstância”. Poucas frases traduziram tão bem a experiência humana. De fato, somos também nosso tempo, os lugares que habitamos, as relações que construímos, as oportunidades que tivemos ou não tivemos, a cultura que nos atravessa… Ah, os fios invisíveis da cultura, tecida em suturas cotidianas, como as linhas escondidas no avesso de uma vestimenta.
É aí que pretendo puxar os fios desta coluna.
Falar do cotidiano, das coisas aparentemente banais, das nossas escolhas, afetos e conflitos. Olhar para o que parece individual e perguntar quanto há de social ali. Desnaturalizar o trivial.
Esta coluna falará de mim, de você, das circunstâncias, das sociedades e das gentes. Dos fios que nos tecem e dos que ainda vamos tecer.
É sobre essas costuras sociológicas.
Até a próxima costura!