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Política, Psicologia, Sociedade

Por que o extremismo político pode gerar ódio, preconceito e violência? A psicologia explica

Por Redação
Publicado em 25/10/2026
às 19:50
Arte gerada por IA

Identidade de grupo, medo, raiva e desumanização ajudam a entender como divergências políticas podem se transformar em hostilidade e intolerância. Especialistas apontam que o processo não depende de uma única causa e não significa que todo cidadão com posições radicais seja violento.

De acordo com a psicóloga Carla Guimarães (Conselho Regional de Psicologia- CRP: 04/701214), “Quando a identidade política se torna uma parte central da identidade pessoal, a discordância pode deixar de ser percebida como uma diferença de opinião e passar a ser interpretada como uma ameaça. É nesse contexto que o adversário corre o risco de ser visto como inimigo.”

A polarização política pode ultrapassar o campo das ideias e se transformar em hostilidade, preconceito, discriminação e, em situações mais graves, violência. Para compreender esse fenômeno, a psicologia investiga como emoções, necessidades de pertencimento, identidade coletiva e influência social podem levar uma pessoa a tratar quem pensa diferente como um inimigo.

O extremismo político não surge necessariamente de uma única experiência, nem pode ser explicado apenas pela personalidade de um indivíduo. Pesquisas na área apontam que sentimentos de insegurança, perda de importância social, intolerância e a necessidade de encontrar um propósito podem contribuir para a adesão a ideologias extremistas. Esses fatores, combinados com determinados ambientes sociais e discursos que legitimam a agressão, podem favorecer processos de radicalização.

É importante fazer uma distinção: defender ideias políticas firmes, criticar governos ou participar de manifestações não caracteriza, por si só, extremismo violento. O sinal de alerta aparece quando a defesa de uma causa passa a justificar a negação de direitos, a perseguição de adversários ou o uso da violência para impor determinadas ideias.

Como a política se transforma em uma questão de identidade

Para muitas pessoas, a posição política não representa apenas uma preferência eleitoral. Ela também pode estar ligada à maneira como alguém compreende o mundo, identifica seus valores e encontra pertencimento em uma comunidade.

Quando a identidade política se torna central, uma crítica ao partido ou ao candidato escolhido pode ser interpretada como um ataque pessoal. Nesse cenário, o debate deixa de ser apenas sobre propostas e passa a envolver a sensação de que a própria identidade está sendo ameaçada.

A psicologia social estuda esse processo por meio do conceito de identidade social: a tendência humana de compreender parte de si mesmo a partir dos grupos aos quais pertence. A distinção entre “nós” e “eles” pode fortalecer a solidariedade dentro de uma comunidade, mas também alimentar a desconfiança e a hostilidade contra quem está do lado de fora.

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Communications Psychology analisou como as interações sociais e a polarização podem transformar crenças políticas em componentes compartilhados da identidade de um grupo. Quando isso acontece, posições inicialmente individuais podem se tornar mais rígidas e emocionalmente carregadas.

Raiva e medo: quando a emoção ocupa o lugar do diálogo

A raiva é uma reação humana que pode surgir diante de injustiças percebidas, ameaças ou frustrações. Ela não é necessariamente prejudicial: em determinadas circunstâncias, pode mobilizar pessoas para denunciar abusos e lutar por mudanças sociais.

Ainda de acordo com a psicóloga Carla, “A raiva, por si só, é uma emoção humana e não significa que alguém vá agir com violência. O risco aumenta quando ela é constantemente alimentada por discursos de medo, ressentimento e ameaça, sem espaço para reflexão crítica.”

O problema aparece quando a raiva se torna persistente, é alimentada por mensagens de ameaça e passa a ser direcionada indiscriminadamente a grupos inteiros. Em vez de questionar uma decisão ou uma conduta específica, a pessoa começa a atribuir intenções maliciosas a todos os integrantes de um grupo político.

O medo também pode desempenhar um papel importante. Quando alguém acredita que seu modo de vida, seus valores ou o futuro do país estão sob ameaça permanente, pode se tornar mais receptivo a discursos que prometem proteção por meio do confronto e da eliminação de supostos inimigos.

Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Political Psychology, sobre o cenário eleitoral dos Estados Unidos em 2024, encontrou uma associação entre raiva, baixa percepção de capacidade de influenciar a política e maior tolerância a comportamentos antidemocráticos e à violência partidária. O resultado não significa que a raiva inevitavelmente leve à agressão, mas indica que o contexto em que a emoção aparece faz diferença.

Preconceito e discriminação: por que o adversário passa a ser tratado como inferior?

O preconceito pode se fortalecer quando uma pessoa deixa de avaliar os outros por suas atitudes individuais e começa a julgá-los com base em estereótipos associados à sua identidade política, religião, origem, raça ou condição social.

“Um dos aspectos mais preocupantes do extremismo é a desumanização do outro. Quando alguém passa a acreditar que determinados grupos são inferiores ou não merecem os mesmos direitos, as barreiras morais contra a agressão podem se enfraquecer”, destaca a psicóloga.

No extremismo, esse mecanismo pode ser utilizado para construir uma imagem negativa de determinados grupos. Adversários passam a ser descritos como perigosos, inferiores, desonestos ou responsáveis por todos os problemas da sociedade.

Essa generalização reduz a disposição para reconhecer diferenças individuais. Uma pessoa pode, por exemplo, considerar que todos os eleitores de determinado candidato possuem o mesmo caráter ou compartilham as mesmas intenções, mesmo sem conhecer suas histórias e motivações.

A discriminação surge quando o preconceito se traduz em tratamento desigual, exclusão ou restrição de direitos. Isso pode acontecer no ambiente de trabalho, nas relações familiares, nas instituições e nas redes sociais.

A hostilidade política também pode ultrapassar os limites partidários e atingir grupos historicamente discriminados, especialmente quando discursos políticos apresentam essas populações como ameaças à sociedade.

Pesquisas sobre polarização indicam que a aversão intensa a adversários políticos, associada à ideia de que a disputa representa uma batalha moral absoluta, pode estar relacionada à aceitação de práticas antidemocráticas.

Desumanização: quando o outro deixa de ser visto como uma pessoa

Divided Social Groups

Um dos mecanismos mais preocupantes na escalada do extremismo é a desumanização. Ela ocorre quando alguém passa a enxergar pessoas de outro grupo como se elas tivessem menos dignidade, menos direitos ou menos valor humano. “Um dos aspectos mais preocupantes do extremismo é a desumanização do outro. Quando alguém passa a acreditar que determinados grupos são inferiores ou não merecem os mesmos direitos, as barreiras morais contra a agressão podem se enfraquecer”, ressaltou Carla.

Esse processo pode aparecer em insultos que comparam adversários a animais, em discursos que os tratam como pragas ou em afirmações de que determinadas pessoas não merecem proteção ou respeito.

A desumanização tem consequências porque pode diminuir as barreiras morais que normalmente inibem a crueldade. Se alguém passa a acreditar que o adversário é uma ameaça à própria existência ou que não merece ser tratado como um ser humano, pode encontrar justificativas para ações que antes consideraria inaceitáveis.

Isso não significa que toda ofensa política levará à violência. A questão é a construção progressiva de um ambiente em que humilhar, excluir ou agredir determinados grupos começa a ser considerado legítimo.

Estudos sobre desumanização e relações entre grupos apontam que a empatia e o reconhecimento da individualidade alheia podem ajudar a reduzir esse tipo de percepção.

Como grupos extremistas podem normalizar a violência?

A passagem do discurso hostil para a violência não acontece da mesma maneira em todos os casos. Pesquisadores estudam a radicalização como um processo que pode envolver motivações individuais, influência de grupos, experiências de injustiça e ideologias que apresentam a violência como um meio aceitável para alcançar determinado objetivo.

Um modelo de radicalização desenvolvido por pesquisadores ligados à Universidade de Maryland destaca três componentes: a busca por significado pessoal, a ideologia que legitima determinados meios e as relações sociais que aproximam o indivíduo de pessoas que compartilham essas crenças.

Ainda segundo a psicóloga Carla Guimãres prática, esse processo pode envolver diferentes etapas:

1. Pertencimento e identificação

A pessoa encontra um grupo que oferece acolhimento, identidade, reconhecimento ou a sensação de fazer parte de uma causa importante.

2. Construção de uma ameaça

O grupo passa a interpretar adversários como inimigos perigosos e atribui a eles a responsabilidade por problemas complexos.

3. Normalização da hostilidade

Insultos, humilhações e discursos de exclusão passam a ser aceitos dentro do grupo, que pode interpretar a moderação como sinal de fraqueza.

4. Justificativa para a agressão

Em situações mais graves, a violência passa a ser apresentada como necessária para defender a causa, punir os adversários ou impedir uma ameaça percebida.

Esquema explicativo baseado em pesquisas sobre identidade social e radicalização. Não representa uma sequência obrigatória nem permite prever o comportamento de uma pessoa específica.

O grupo também pode funcionar como um ambiente de reforço. Quando seus integrantes recebem aprovação por declarações agressivas, podem se sentir incentivados a adotar posições ainda mais hostis. O medo de ser rejeitado pelos próprios aliados pode dificultar questionamentos e estimular a conformidade.

Entretanto, é importante evitar uma conclusão simplista: pessoas que compartilham uma ideologia não necessariamente apoiam todas as atitudes de seus integrantes, e a maioria dos conflitos políticos não evolui para violência física.

O papel das redes sociais na amplificação do extremismo

As redes sociais podem facilitar a circulação de mensagens que exploram medo, indignação e ressentimento. Conteúdos que provocam reações emocionais intensas podem ganhar visibilidade, enquanto comunidades digitais permitem que pessoas com opiniões semelhantes reforcem mutuamente suas convicções.

Em alguns ambientes, informações falsas ou fora de contexto são usadas para alimentar a percepção de que um grupo está sendo perseguido ou de que uma ameaça iminente exige uma resposta imediata.

A repetição dessas mensagens pode criar uma visão distorcida da realidade, sobretudo quando o usuário tem pouco contato com fontes independentes ou perspectivas diferentes.

Isso não significa que as redes sociais produzam extremismo automaticamente. Elas também servem para mobilização democrática, denúncia de injustiças e circulação de informações confiáveis. O efeito depende do conteúdo, das relações sociais, das características individuais e das condições em que as mensagens são consumidas.

Existe uma personalidade extremista?

Não existe uma explicação psicológica única capaz de identificar todas as pessoas que aderem a ideologias extremistas. Pesquisas apontam fatores que podem aumentar a vulnerabilidade à radicalização, mas nenhum deles, isoladamente, determina que alguém se tornará extremista ou violento.

A necessidade de pertencimento, a insegurança, a busca por reconhecimento, a intolerância à ambiguidade e a adesão rígida a determinadas crenças podem ter relevância em alguns contextos. Esses fatores, porém, também aparecem em pessoas que não apresentam comportamentos violentos.

Da mesma forma, não é correto diagnosticar alguém com um transtorno mental apenas porque essa pessoa demonstra radicalismo político, preconceito ou agressividade. Ideologia, comportamento e diagnóstico clínico são questões diferentes.

A análise psicológica deve observar atitudes concretas, contexto, histórico e padrões de comportamento, sem transformar diferenças políticas em diagnósticos improvisados.

Como interromper o ciclo de ódio e intolerância?

A prevenção exige mais do que pedir que as pessoas sejam tolerantes. É necessário criar condições para que divergências possam ser discutidas sem transformar os participantes em inimigos.

  • Questionar generalizações: não atribuir a todos os integrantes de um grupo as atitudes de algumas pessoas.
  • Verificar informações: conferir a origem de vídeos, imagens, declarações e notícias antes de compartilhá-los.
  • Reconhecer a humanidade do adversário: discordar de ideias e responsabilizar pessoas por seus atos sem negar sua dignidade ou seus direitos.
  • Evitar a recompensa social à agressão: não tratar ameaças, humilhações e discursos discriminatórios como demonstrações de coragem ou lealdade política.
  • Preservar espaços de diálogo: incentivar conversas em que as pessoas possam apresentar argumentos, ouvir críticas e rever posições sem que toda divergência seja interpretada como traição.
  • Estabelecer limites claros: ameaças, perseguições e agressões precisam ser enfrentadas por meio de medidas adequadas de proteção e responsabilização.

A pesquisa sobre polarização também aponta a importância da confiança social e da criação de condições para a cooperação entre pessoas que discordam politicamente.

Conclusão: a divergência política não precisa se transformar em ódio

O extremismo político merece atenção quando a fidelidade a uma causa passa a se sobrepor ao respeito pela dignidade humana, aos direitos fundamentais e à possibilidade de convivência democrática.

A raiva pode ter causas compreensíveis, e a busca por pertencimento é uma necessidade humana legítima. O problema surge quando emoções e necessidades são mobilizadas para justificar preconceito, discriminação, perseguição ou violência.

Compreender esses mecanismos não significa desculpar comportamentos abusivos nem eliminar a responsabilidade individual. Significa reconhecer como determinadas condições psicológicas e sociais podem favorecer a intolerância e como elas podem ser enfrentadas.

Em uma democracia, é possível defender posições firmes, denunciar injustiças e combater ideias consideradas prejudiciais sem desumanizar quem pensa diferente. O limite fundamental não é a existência de divergências, mas a tentativa de transformar essas divergências em justificativa para negar direitos ou legitimar a violência.

Reportagem explicativa produzida com base em literatura científica. As pesquisas citadas não devem ser interpretadas como prova de que um partido, espectro ideológico ou eleitorado inteiro seja, por natureza, extremista ou violento.

“Combater o extremismo exige fortalecer a capacidade de conviver com diferenças, reconhecer a dignidade humana e discutir ideias sem transformar pessoas em inimigas. O diálogo não significa aceitar a intolerância, mas estabelecer limites claros para a discriminação e a violência”, finaliza a psicóloga Carla Guimarães.

Carla Guimarães (Conselho Regional de Psicologia- CRP: 04/701214):

Contato: (32) 99842-1999 (Whatsapp)
Instagram: @carla.guimaraes_psi


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