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O Leão adormecido: de mais popular da cidade ao ostracismo, o Tupynambás tenta resistir 

Por Nathan Marcelino
Publicado em 02/09/2026
às 12:03
Foto: Arquivo pessoal Felipe Castilho

Fundado em 1911, o clube do Poço Rico é a equipe mais antiga da cidade e dono de uma das torcidas mais fanáticas e folclóricas da região. O alvirrubro obteve um sucesso repentino na década passada, chegando à Série D em 2020, mas o clube não conseguiu se sustentar, acumulou dívidas e vendeu 80% de seu patrimônio localizado no bairro Poço Rico. O Tupynambás, que já teve a maior torcida da cidade, vive um presente de ostracismo e memória.

“O Tupynambás não está abandonado.”

Ex-massagista do clube, Jefferson Machado guarda carinho pelos 7 anos em que trabalhou no Baeta. Para Machado, o ostracismo em que o Leão do Poço Rico se encontra se deve à falta de apoio financeiro municipal: “Existe muita gente séria no clube, ele não está abandonado. O problema é que falta apoio das empresas e da prefeitura”, comenta. 

Ao contrário de Machado, Sidney Vieira, torcedor histórico do Baeta, guarda mágoax da direção do clube. O comerciante e ex-jogador do Caça-Fantasmas lamenta o ostracismo do Tupynambás e a venda do espaço social, que, segundo Vieira, é um pedaço da sua vida: “Eu não torço mais para ninguém em Juiz de Fora depois que acabaram com meu time. A diretoria não teve nenhuma transparência em relação à venda do social. Eu peguei minhas coisas do clube e guardei em uma caixa. Quando eu desço o viaduto, nunca olho para a direita (Poço Rico) para não ver onde era o clube”, lamenta. 

As decisões recentes da diretoria não agradaram os torcedores, que viram o clube mudar o tradicional escudo em 2021 à revelia da maior parte dos amantes do Baeta. Para o auxiliar de produção e torcedor do Leão, Felipe Esteves, as decisões dos dirigentes, principalmente em relação à venda do patrimônio do alvirrubro, não foram feitas com transparência por quem comanda o clube: “Ninguém bota a cara pra falar sobre o assunto publicamente. O que se tem notícia é que supostamente “a prefeitura estaria atrapalhando” (sic). Se isso é verdade, eu não sei. Acho que a imprensa juiz-forana poderia ir mais atrás disso; é uma história muito mal explicada”, alega.

 Licenciado desde o final de 2024, a direção do Tupynambás argumentou à época que a decisão de sair do profissionalismo se deve justamente à falta de repasses referentes à Lei de Patrocínio ao Futebol por parte da Prefeitura de Juiz de Fora. Esta, por sua vez, informou em maio de 2025 que a agremiação não apresentou a documentação necessária para o investimento. A reportagem tentou entrar em contato com a diretoria atual do Baeta, mas não conseguiu respostas.

“A população mais jovem não conhece o clube”

De apelo massivo no século passado, o Tupynambás arrastava multidões em sua sede social na realização de eventos como os bailes de Carnaval e o rancho “Quem são eles”, que movimentava a folia da cidade. O clube possuía o maior salão social do estado e uma área de lazer que abrangia vários esportes. 

Em 1990, a Prefeitura de Juiz de Fora organizou o “Torneio dos Ingressos Coloridos”, competição entre os clubes da cidade para comemorar o aniversário de 140 anos do município. Cada clube vendia os ingressos com as cores da respectiva agremiação para definir qual era a maior torcida juiz-forana. Em campo deu Carijó, mas o Baeta dominou a arquibancada. O jornalista Márcio Guerra, que foi um dos idealizadores do torneio, relembra que a torcida do Baeta se engajou para vencer o “título” das arquibancadas: “Existia uma rivalidade entre Tupi e Tupynambás para saber quem era a maior torcida da cidade. O Leão não era tão presente nas disputas do campeonato mineiro, então a torcida se mobilizou para ganhar a honraria”, recorda.

Quem viveu a fase dourada da torcida alvirrubra lamenta a falta de apelo atual. Débora Renault, torcedora do Leão que viveu no bairro Poço Rico e neta de Waldemiro Renault, fundador da torcida “Charanga do Baeta”, alega que a falta de cuidado das administrações do Tupynambás fez o clube perder popularidade: “A efervescência dos anos 80 acabou e não souberam administrar para que a agremiação se mantivesse no cenário da cidade. A população mais jovem não conhece o clube e isso me entristece”, relata.

Apesar do fim do clube social e do pouco apreço da população jovem, Giovanna Pereira, estudante de jornalismo de 26 anos, ainda guarda carinho pelo Tupynambás.  Giovanna conta que o apreço pelo Leão vem de berço: “Minha mãe frequentou o clube durante toda a gravidez. No dia em que nasci, ela estava saindo de casa para ir ao Tupynambás e entrou em trabalho de parto”, relembra. De família ligada ao clube, a estudante está produzindo seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre o Baeta, um documentário narrativo chamado “Tupynambás Social Clube: Histórias do Baeta apesar do futebol”.

Testemunha dos melhores momentos do Tupynambás, Rozilene Ferreira não esconde o amor pelo Leão. Criada próxima ao clube, a aposentada, que foi a primeira nadadora da história do alvirrubro após a inauguração da piscina social, conta que toda a família teve a criação dentro do Baeta: “Tenho três filhos e todos foram criados frequentando o espaço social. Minha trajetória no Tupynambás foi imensa; fui diretora e vice-presidente, e meu pai foi diretor, ele tinha um amor incondicional pelo Baeta”, relata. Rozilene alega que o Leão foi perdendo apreço e o número de sócios foi diminuindo; com isso, as dívidas foram aumentando e as finanças do Baeta perderam fôlego. 

Área do antigo clube do Tupynambás (Foto: Nathan Marcelino)

O Tupynambás e o Poço Rico

O Tupynambás possuía uma sede imponente dentro do Poço Rico. O clube atendia à comunidade com campo de futebol, quadra de vôlei, piscina e área social vasta. Para o gerente de vendas e membro da Torcida Jovem do Baeta, Felipe Castilho, as memórias do Leão ainda estão presentes: “Se você for no Poço Rico, vai encontrar muitas marcas do clube. Todas as minhas bandeiras e instrumentos estão comigo e todo mês as lavo para manter a história viva. Nos bares do bairro ainda dá para encontrar vários escudos e marcas do Baeta”, comenta. Philipe Lana, músico e torcedor do clube, também acredita que o bairro lamenta a venda da sede: “A comunidade sente falta do espaço social. As marcas foram deixadas por todos que tiveram histórias que são contadas por quem vive ali. Acho que todo mundo no Poço Rico tem uma história ligada ao Baeta”, afirma. Entretanto, segundo Vieira, o Tupynambás perdeu até o carinho local: “Se você for ao Poço Rico, ninguém fala mais do Baeta. Acabou”, lamenta.

Para o jornalista e ex-morador do bairro, Ícaro Renault, o clube tinha uma função social importante no funcionamento da região: “O Tupynambás era um ponto de união para as pessoas do bairro e trazia segurança para a comunidade com cultura e lazer. Faz muita falta para o Poço Rico ter o clube”, comenta. Hoje, apenas 20% da antiga sede se mantém ativa. O local onde era a área social do clube foi substituído pelo Assaí Atacadão. São as marcas do tempo e da especulação imobiliária, que fizeram 80% do clube de futebol mais antigo da cidade virarem lembranças.

Sobre Nathan Marcelino

Repórter do JF Diário. Apaixonado por esporte, cultura e fã de política. Poeta e cronista por inspiração de Nelson Rodrigues.

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