Experiência brasileira de organização digital, que ganhou força durante a campanha presidencial, começa a ser reproduzida por grupos políticos na Europa e nas Américas. Estratégia inclui mobilização pelo WhatsApp, produção de conteúdo e participação nas ruas.
A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras de 2026 começou a repercutir para além das fronteiras do país. Movimentos políticos e organizações de outros lugares do mundo passaram a observar e reproduzir estratégias utilizadas na campanha brasileira, especialmente as iniciativas de mobilização digital que ajudaram a ampliar o alcance das mensagens em defesa da candidatura petista.
A experiência que mais chama a atenção é a do chamado “Exército do Lula”, canal de WhatsApp coordenado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG). A iniciativa reuniu mais de 10 milhões de seguidores durante a reta final da disputa eleitoral e se tornou uma referência para grupos que procuram organizar a comunicação política e enfrentar o crescimento de movimentos de extrema-direita.
A repercussão internacional foi abordada em reportagem da BBC, intitulada How ‘Lula’s Army’ WhatsApp channel helped turn Brazil election around (Como o canal de WhatsApp ‘Exército do Lula’ ajudou a virar a eleição brasileira).
Segundo a publicação, o canal ganhou força principalmente entre o primeiro e o segundo turno, quando apoiadores receberam orientações frequentes para compartilhar vídeos, divulgar hashtags, ampliar o alcance de publicações e conquistar novos apoiadores.
Como funcionou o Exército do Lula
A estratégia coordenada por Janones transformou apoiadores da candidatura em participantes ativos da comunicação eleitoral. Em vez de apenas receberem informações sobre a campanha, os integrantes do canal eram convidados a cumprir tarefas específicas nas redes sociais.
As orientações incluíam compartilhar materiais, comentar publicações, divulgar conteúdos em grupos e estimular outras pessoas a participar da mobilização.
O objetivo era ampliar a circulação das mensagens de Lula em um ambiente digital no qual grupos ligados à direita e ao bolsonarismo já tinham construído uma presença expressiva.
A iniciativa também apostou na linguagem direta, em vídeos curtos e em mensagens de fácil compartilhamento. Com isso, conteúdos produzidos pela campanha e por seus apoiadores conseguiam chegar a pessoas que não acompanhavam necessariamente os canais oficiais do Partido dos Trabalhadores (PT).
A mobilização não ficou restrita à internet. A participação de jovens, organizações sociais e apoiadores em manifestações e atividades presenciais também contribuiu para dar visibilidade à campanha.
Estratégia começa a ser reproduzida no exterior
A repercussão da experiência brasileira já aparece em iniciativas de outros países.
Na França, apoiadores do movimento político de Jean-Luc Mélenchon, ligado ao partido La France Insoumise, organizaram o grupo “Les Soldats Insoumis” (Os Soldados Insurgentes). A iniciativa utiliza aplicativos de mensagens para coordenar a divulgação de conteúdos, estimular o compartilhamento de publicações e ampliar a participação dos apoiadores.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, a experiência brasileira foi citada por integrantes do movimento francês como uma referência para a organização digital.
O caso também foi abordado pelo jornal Folha de S.Paulo, em reportagem publicada em 28 de outubro de 2026, que mostrou como grupos políticos de outros países começaram a observar o modelo de mobilização associado à campanha de Lula.
Nos Estados Unidos, ativistas também demonstraram interesse na estratégia brasileira como uma ferramenta de organização de grupos contrários à agenda política de Donald Trump. Na Espanha e no México, gestos e referências associados à campanha de Lula também passaram a aparecer em manifestações e iniciativas políticas.
Na Argentina, a experiência brasileira também despertou interesse de grupos que acompanham as disputas políticas envolvendo a direita e a extrema-direita na América Latina.
O que outros países podem aprender com a experiência brasileira?
A principal característica do modelo é a combinação entre comunicação digital e mobilização presencial. A experiência mostrou como aplicativos populares, especialmente o WhatsApp, podem ser utilizados para organizar milhares de pessoas em torno de objetivos comuns.
Um estudo publicado pelo Journal of Democracy, ao analisar a estratégia da campanha brasileira, destaca que a mobilização digital ganha força quando ultrapassa as telas e se transforma em participação concreta. Isso inclui conversas entre familiares, vizinhos e amigos, organização comunitária e presença nas ruas.
O estudo também chama atenção para a importância de apresentar propostas e perspectivas de futuro, e não limitar a comunicação política à rejeição de adversários.
A estratégia, entretanto, não pode ser simplesmente reproduzida de maneira automática. Cada país possui características próprias, diferentes hábitos de consumo de informação e sistemas políticos distintos. Além disso, o uso de mensagens em massa e de estratégias agressivas de comunicação também levanta discussões sobre os limites éticos da mobilização política nas redes.
Uma experiência brasileira com repercussão internacional
A eleição de Lula colocou novamente o Brasil no centro de um debate internacional sobre democracia, comunicação e participação popular.
A experiência do “Exército do Lula” demonstra como a organização de apoiadores pode ganhar escala quando existe uma rede de comunicação capaz de transformar mensagens em ações coletivas.
Mais do que o resultado eleitoral, o que chama a atenção de movimentos estrangeiros é a possibilidade de conectar pessoas, organizar iniciativas e ampliar a circulação de informações em um cenário de forte polarização política.
A experiência brasileira, agora observada por grupos de diferentes países, abre uma discussão sobre o papel das redes sociais na defesa da democracia e sobre como movimentos políticos podem disputar espaço em um ambiente digital cada vez mais decisivo.