Mostra “Salve Cosme e Damião!” homenageia pessoas que mantêm viva a tradição dos saquinhos de doces e aborda o sincretismo religioso que marcou a celebração no Brasil
Quem cresceu vendo crianças correrem pelas ruas atrás dos tradicionais saquinhos de balas, chocolates, pirulitos e outras guloseimas provavelmente guarda uma lembrança de Cosme e Damião. A tradição, que atravessa gerações e faz parte da memória afetiva de muitas famílias brasileiras, é justamente o tema da exposição “Salve Cosme e Damião!”, em cartaz em Juiz de Fora.

Foto: Sophia Bispo
A mostra ocupa a Galeria Narcisse Szymanowski, no interior do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), e reúne obras que homenageiam pessoas responsáveis por preservar essa tradição na cidade. A visitação é gratuita e segue até 8 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.
Mas, afinal, de onde surgiu o costume de distribuir doces no dia de Cosme e Damião?
A história de Cosme e Damião e a tradição dos doces
Segundo a tradição cristã, Cosme e Damião eram irmãos gêmeos e médicos que viveram entre os séculos III e IV e ficaram conhecidos por atender gratuitamente pessoas pobres. Por sua fé cristã, foram perseguidos e martirizados, passando a ser venerados como santos pela Igreja Católica.
No Brasil, a devoção aos irmãos ganhou novos significados a partir do encontro entre o catolicismo e as religiões de matriz africana. Cosme e Damião passaram a ser associados aos Ibejis, orixás gêmeos da tradição iorubá ligados à infância, à alegria e à proteção das crianças. Em algumas tradições, também são relacionados aos Erês.
É desse sincretismo que se fortaleceu a tradição popular de distribuir doces para as crianças. Em muitas famílias, a prática está relacionada a promessas e pedidos de proteção ou saúde; em outras, é mantida como uma tradição cultural passada de geração em geração.
A celebração se tornou uma manifestação popular marcada pela distribuição dos tradicionais saquinhos de doces, especialmente no dia 27 de setembro. Mais do que uma festa religiosa, o costume passou a fazer parte da memória afetiva de diversas comunidades brasileiras, reunindo fé, cultura, infância e solidariedade.

Foto: Sophia Bispo
Exposição preserva memória em Juiz de Fora
É justamente essa memória que a exposição “Salve Cosme e Damião!” pretende preservar.
Idealizada pelos artistas Mariâna Andrade e Rodrigo Diäs, por meio da Caramuru Produtora Artística e Cultural, a mostra homenageia seis pessoas que ajudam a manter viva a tradição dos doces em Juiz de Fora: Adriana Costa, Adriana Petara Ryal, Daniel Silva, Jorge de Paula, Renata da Silva e Simone Florentino.
Os homenageados têm seus rostos representados em grandes tecidos de 2,90 metros por 1,45 metro, inspirados na estética dos tradicionais saquinhos de doces.
Além dos retratos, a exposição apresenta esculturas dos santos gêmeos cercadas pelas guloseimas características da celebração. As obras utilizam diferentes técnicas, como modelagem escultórica, moldagem de elementos em silicone, moulage têxtil, colagem e pintura artística em acrílica.
Segundo a proposta da exposição, a quantidade de pessoas que mantém essa tradição vem diminuindo, colocando em risco a continuidade do festejo. Por isso, o projeto transforma a própria memória dos “guardiões” da tradição em objeto artístico.
A iniciativa também terá um documentário sobre a história dos seis homenageados, com lançamento previsto para 27 de setembro, data tradicionalmente associada à celebração de Cosme e Damião no Brasil.
A mostra ainda conta com conteúdos textuais em Braille, ampliando a acessibilidade da experiência.