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Política

Juiz de Fora e as urnas: uma cidade que historicamente se inclina à esquerda nas eleições presidenciais

Por Redação
Publicado em 07/10/2026
às 04:15
Comício da candidatura “Lula Presidente” (PT) nas eleições de 1989 (Juiz de Fora-MG, 05 out. 1989). / Crédito: Nando Neves

Desde a redemocratização, eleitorado juiz-forano deu preferência a candidaturas de esquerda ou centro-esquerda em boa parte das disputas; Lula venceu na cidade em seis das oito eleições em que esteve no páreo e voltou a liderar em 2026

Juiz de Fora construiu, ao longo das últimas décadas, um comportamento eleitoral que chama a atenção quando o assunto é a escolha do presidente da República. Embora a cidade nunca tenha votado de forma absolutamente uniforme e tenha acompanhado movimentos nacionais em diferentes momentos, os resultados mostram uma recorrente preferência por candidaturas posicionadas à esquerda ou à centro-esquerda do espectro político.

O histórico fica ainda mais evidente quando se observa a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. O petista foi o candidato mais votado em Juiz de Fora nas eleições de 1998, 2002, 2006 e 2022, além de ter sido superado apenas por outros nomes em disputas nas quais não concorreu. Em 2026, Lula voltou a liderar a votação na cidade no primeiro turno, com 151.424 votos, ou 49,57% dos votos válidos, contra 126.881 de Flávio Bolsonaro, que ficou com 41,54%.

Mas a história é mais complexa — e justamente por isso ajuda a entender a relação de Juiz de Fora com a política nacional.

A redemocratização e a primeira eleição direta

A eleição presidencial de 1989 marcou o retorno do voto direto para presidente após 29 anos. Em Juiz de Fora, o primeiro turno daquele pleito já indicava uma característica que voltaria a aparecer em eleições posteriores: a força das candidaturas progressistas.

Segundo levantamento histórico publicado sobre a eleição, Lula terminou o primeiro turno à frente na cidade, seguido por Fernando Collor e Mário Covas. A disputa nacional, entretanto, levou Collor e Lula ao segundo turno, vencido pelo candidato do PRN.

O contexto local também era politicamente movimentado. Juiz de Fora tinha uma tradição de organização sindical, participação de movimentos sociais e presença de lideranças ligadas ao campo progressista. A própria região elegeu, para a Assembleia Nacional Constituinte, nomes de diferentes campos políticos, entre eles o petista Paulo Delgado.

A cidade, portanto, não nasceu eleitoralmente petista. O que aparece ao longo das décadas é uma tendência de forte presença das candidaturas de esquerda e centro-esquerda no eleitorado.

1994: a primeira grande exceção

A eleição de 1994 é importante para desmontar uma leitura simplista de que Juiz de Fora sempre escolheu a esquerda.

Naquele ano, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi o candidato mais votado na cidade, com 113.717 votos. Lula ficou em segundo, com 53.694. FHC recebeu 56,57% dos votos registrados na base consultada, enquanto o petista ficou com 26,71%.

O resultado acompanhou a força nacional do então candidato tucano, impulsionada pelo Plano Real e pela estabilização da inflação.

Quatro anos depois, porém, o cenário local mudou.

1998: Lula passa à frente

Em 1998, Lula foi o candidato mais votado em Juiz de Fora. O petista recebeu 96.405 votos, equivalentes a 43,81% dos votos válidos.

Fernando Henrique Cardoso, que buscava a reeleição, ficou em segundo, com 58.282 votos e 26,49%. Ciro Gomes apareceu em terceiro, com 56.807 votos.

A eleição é um dos primeiros marcos claros da mudança do comportamento presidencial da cidade: a partir dali, Lula passaria a ter uma presença eleitoral especialmente forte no município.

2002: uma das maiores votações de Lula

A eleição de 2002 consolidou essa característica.

No primeiro turno, Lula recebeu 174.699 votos em Juiz de Fora, correspondentes a 63,89% dos votos válidos. Anthony Garotinho ficou em segundo, com 45.438 votos, enquanto Ciro Gomes teve 26.318 e José Serra, 24.565.

No segundo turno, a vantagem petista aumentou ainda mais. Lula alcançou 225.524 votos, ou 83,36% dos votos válidos, contra 45.019 de José Serra.

O resultado transformou Juiz de Fora em um dos municípios mineiros onde a candidatura de Lula apresentou maior força naquele pleito.

2006: Lula chega a quase 73% no segundo turno

Quatro anos depois, a preferência pelo petista voltou a aparecer de maneira contundente.

No primeiro turno de 2006, Lula teve 152.757 votos, 55,69% dos votos válidos, contra 76.091 de Geraldo Alckmin. Heloísa Helena, do PSOL, recebeu 31.526 votos.

No segundo turno, Lula ampliou a vantagem: foram 204.873 votos, equivalentes a 72,94% dos votos válidos, contra 75.988 de Alckmin.

O resultado também mostra outro elemento importante do eleitorado local: além da força do PT, candidaturas de esquerda mais radicalizadas, como a de Heloísa Helena, encontraram espaço expressivo no primeiro turno.

2010 e 2014: a continuidade com Dilma

A preferência por candidaturas do campo petista não terminou com os dois mandatos de Lula.

Em 2010, Dilma Rousseff foi a mais votada em Juiz de Fora no primeiro turno, com 139.654 votos, ou 48,94% dos votos válidos.

No segundo turno, a petista ampliou a vantagem e chegou a 189.310 votos, 68,84% dos votos válidos, contra 85.697 de José Serra.

Em 2014, novamente Dilma terminou o primeiro turno à frente na cidade. A petista recebeu 124.992 votos, contra 77.822 de Aécio Neves e 62.621 de Marina Silva. No segundo turno, Dilma também levou vantagem sobre Aécio.

Era uma sequência de quatro eleições presidenciais consecutivas — 2002, 2006, 2010 e 2014 — em que o eleitorado de Juiz de Fora escolheu, no primeiro turno, candidatos ligados ao PT.

2018: a onda Bolsonaro quebra a sequência

A eleição de 2018 representa a principal ruptura recente nessa trajetória.

Jair Bolsonaro foi o candidato mais votado em Juiz de Fora no primeiro turno, com 129.897 votos, ou 45,48% dos votos válidos. Fernando Haddad, do PT, ficou em segundo, com 66.616 votos, seguido por Ciro Gomes, com 57.757.

No segundo turno, Bolsonaro novamente venceu na cidade, com 145.333 votos, 52,36% dos votos válidos, contra 132.283 de Haddad.

O resultado demonstra que a tendência histórica não significa um comportamento eleitoral imutável. Em momentos de forte polarização nacional, Juiz de Fora também pode se deslocar para a direita.

2022: Lula recupera a liderança

A eleição seguinte marcou uma nova mudança.

No primeiro turno de 2022, Lula voltou a ser o candidato mais votado na cidade, com 167.048 votos, equivalentes a 52,62% dos votos válidos. Jair Bolsonaro teve 121.945 votos, ou 38,4%.

No segundo turno, a vantagem de Lula foi de 39.303 votos. O petista recebeu 180.954 votos, ou 56,09% dos votos válidos, contra 141.651 de Bolsonaro.

A cidade, portanto, voltou ao padrão observado durante boa parte das duas primeiras décadas do século XXI.

2026: a cidade mantém a preferência por Lula

O resultado de 2026 reforça essa característica.

No primeiro turno realizado em 4 de outubro, Lula foi novamente o mais votado em Juiz de Fora. O presidente recebeu 151.424 votos, 49,57% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro ficou com 126.881 votos, 41,54%.

Com isso, desde 1998, Lula foi o candidato mais votado em Juiz de Fora em todas as eleições presidenciais das quais participou, com uma exceção importante no contexto geral: em 1994, Fernando Henrique Cardoso venceu o petista. Lula não disputou 2018, quando Bolsonaro venceu.

O que os números dizem sobre Juiz de Fora?

O conjunto dos resultados permite falar em uma tendência histórica de Juiz de Fora ao campo progressista e de esquerda, especialmente quando comparada à força que candidaturas conservadoras tiveram em outras regiões de Minas Gerais.

A sequência é significativa:

AnoCandidato mais votado em Juiz de Fora
1989Lula, no 1º turno
1994Fernando Henrique Cardoso
1998Lula
2002Lula
2006Lula
2010Dilma Rousseff
2014Dilma Rousseff
2018Jair Bolsonaro
2022Lula
2026Lula

Os dados oficiais disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral permitem consultar os resultados das eleições presidenciais por município e comparar a votação ao longo das diferentes eleições.

O quadro revela algo mais interessante do que simplesmente chamar Juiz de Fora de uma cidade “petista”. O eleitorado juiz-forano já escolheu Fernando Henrique Cardoso, Jair Bolsonaro e outras candidaturas de centro ou de direita. Ao mesmo tempo, deu votações expressivas a Lula, Dilma Rousseff e outras candidaturas do campo progressista.

A diferença está na frequência: desde o fim dos anos 1990, a esquerda venceu a maioria das disputas presidenciais na cidade, e Lula se tornou o principal nome dessa preferência.

Uma cidade fora do padrão mineiro?

O comportamento de Juiz de Fora também ganha dimensão quando comparado ao estado de Minas Gerais.

Minas Gerais alternou resultados presidenciais ao longo do período democrático: Collor venceu em 1989, FHC em 1994 e 1998, Lula em 2002 e 2006, Dilma em 2010 e 2014, Bolsonaro em 2018 e Lula novamente em 2022.

Juiz de Fora, em diversos desses momentos, acompanhou o resultado mineiro, mas em algumas disputas apresentou uma vantagem maior para candidaturas de esquerda.

Em 2002, por exemplo, Lula teve 83,36% dos votos válidos no segundo turno da cidade. Em 2006, chegou a 72,94%. Em 2010, Dilma alcançou 68,84%. E, em 2022, Lula venceu Bolsonaro por 56,09% a 43,91%.

O histórico ajuda a explicar por que Juiz de Fora frequentemente aparece como um território eleitoral relevante para campanhas presidenciais. A cidade tem um eleitorado numeroso, universitário, sindical, culturalmente ativo e historicamente marcado por disputas políticas intensas.

Mais do que uma cidade que “sempre vota à esquerda”, portanto, os resultados permitem descrevê-la como um município onde candidaturas progressistas e de esquerda encontraram, ao longo das últimas décadas, uma base eleitoral particularmente consistente.

E há uma correção histórica importante: não é correto dizer que Lula venceu em Juiz de Fora desde a primeira eleição presidencial da redemocratização. Em 1989, ele foi o mais votado no primeiro turno, mas a eleição terminou com a vitória de Fernando Collor no segundo turno; em 1994, Fernando Henrique Cardoso venceu na cidade; e em 2018, Jair Bolsonaro rompeu a sequência de vitórias do campo petista.

Ainda assim, olhando o conjunto da série histórica, o padrão é claro: Juiz de Fora passou a apresentar, especialmente a partir do final dos anos 1990, uma inclinação eleitoral recorrente para candidaturas de esquerda ou centro-esquerda nas eleições presidenciais.

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