A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (10), uma operação para investigar possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao todo, são cumpridos mandados de busca e apreensão contra 22 pessoas.
Entre os alvos estão a produtora Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP). A ação não prevê prisões. Os agentes cumprem medidas de busca e apreensão determinadas pela Justiça.
O inquérito é relatado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação, que tramitava originalmente em São Paulo, foi encaminhada para a Corte.
A apuração conduzida por Dino busca esclarecer a possível utilização irregular de recursos públicos e de emendas parlamentares que teriam chegado a empresas ou organizações relacionadas à produção do longa.
Há ainda uma segunda investigação no STF envolvendo o filme. Sob relatoria do ministro André Mendonça, o procedimento apura transferências realizadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, após pedidos feitos pelo senador Flávio Bolsonaro, além de tentar identificar o destino dos valores.
Repasse milionário é investigado
As suspeitas ganharam força após a divulgação, em maio, de mensagens e de um áudio atribuídos a Flávio Bolsonaro nos quais ele teria solicitado recursos a Vorcaro para financiar o projeto cinematográfico.
Segundo informações divulgadas à época, pelo menos R$ 61 milhões teriam sido repassados em 2025. Os valores teriam sido direcionados a um fundo sediado nos Estados Unidos e administrado por um advogado que possui ligação profissional com Eduardo Bolsonaro.
Na quarta-feira (9), André Mendonça homologou o acordo de colaboração premiada firmado entre a Procuradoria-Geral da República (PGR) e Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”.
O empresário é proprietário da Entre Investimentos, companhia apontada como responsável por realizar parte das operações financeiras determinadas por Vorcaro.
Em seu depoimento, Mineiro relatou que foi procurado pelo ex-banqueiro para realizar transferências internacionais por meio da aquisição de cotas do Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
De acordo com o conteúdo da colaboração, foram realizadas sete operações entre janeiro e setembro de 2025. Juntas, elas movimentaram US$ 12,333 milhões, quantia que correspondia a aproximadamente R$ 62,8 milhões na cotação de setembro daquele ano.
A previsão inicial, segundo o empresário, era de que fossem realizadas mais de dez operações, que poderiam alcançar cerca de US$ 24 milhões. O cronograma, porém, não foi totalmente executado.
Mineiro entregou aos investigadores documentos relacionados às transferências, além de correspondências eletrônicas mantidas com Paulo Calixto, apontado como responsável pela administração fiduciária do fundo e advogado ligado a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O empresário declarou ainda que desconhecia qual seria a destinação final dos recursos enviados ao fundo.
PF apura destino dos recursos
Um dos principais pontos investigados pela Polícia Federal é justamente a utilização do dinheiro. A versão apresentada por Flávio Bolsonaro e pela produtora Go Up é de que os recursos foram empregados integralmente na produção de Dark Horse.
A investigação busca verificar se todo o montante teve essa finalidade ou se parte dos valores acabou sendo direcionada para outras despesas ou beneficiários.
Outro aspecto analisado envolve recursos mantidos no exterior. Mineiro afirmou, em sua colaboração, que também realizou pagamentos por meio de uma empresa vinculada a ele e registrada nas Bahamas.
Segundo o empresário, nessas operações recebia faturas encaminhadas por Vorcaro, que determinava os pagamentos. Ele não informou às autoridades quem eram todos os destinatários dos recursos.
A Polícia Federal também apura a possibilidade de valores mantidos em estruturas financeiras nas Bahamas terem sido encaminhados ao Havengate ou a pessoas relacionadas ao fundo.
Produtora diz que contas estão regulares
A empresa Go Up, responsável pela produção do filme, contratou uma auditoria independente para analisar as contas do projeto. Em junho, o trabalho concluiu que os registros financeiros da produção estavam regulares.
Os documentos completos da auditoria, incluindo comprovantes e notas fiscais dos gastos, não foram divulgados publicamente.
Segundo o resultado apresentado pela empresa, Dark Horse teve custo estimado em R$ 75 milhões e os recursos teriam sido provenientes do fundo Havengate.
O advogado de Antonio Carlos Freixo Junior, Marco Petrelluzzi, não comentou as declarações do cliente, alegando que o caso está protegido por segredo de Justiça.
A assessoria de Flávio Bolsonaro também foi procurada sobre as informações apresentadas na colaboração premiada. A resposta foi de que os esclarecimentos sobre o financiamento do longa vêm sendo prestados pela produtora Go Up, que afirma já ter apresentado a documentação referente às contas do filme.
A investigação segue em andamento.
Fonte: PF.