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Editorial, Nacional, Política

EDITORIAL | Quando a democracia vira obstáculo para um projeto de poder

Por Redação
Publicado em 09/10/2026
às 15:16
(Foto: Intercept Brasil.)
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A atuação de Flávio Bolsonaro (PL), as articulações da família Bolsonaro junto ao governo dos Estados Unidos e o legado político de Jair Bolsonaro recolocam no centro do debate uma questão fundamental: até onde pode ir um projeto de poder sem comprometer a democracia brasileira? Em meio às consequências dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, aos ataques ao sistema eleitoral e às controvérsias envolvendo a pressão política sobre o Brasil no cenário internacional, a continuidade do bolsonarismo exige uma avaliação rigorosa de seu compromisso com as instituições democráticas. Em contraponto, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua defesa declarada da legitimidade eleitoral também precisam ser consideradas no debate sobre os rumos políticos do país.

A democracia não se resume ao direito de disputar eleições. Ela exige que os resultados das urnas sejam respeitados, que os adversários políticos tenham seus direitos garantidos, que as instituições funcionem sem ameaças e que nenhum governante se considere acima da Constituição. Quando esses princípios são colocados em xeque, a sociedade precisa reagir com informação, responsabilidade e firmeza.

A trajetória política de Jair Bolsonaro (PL), especialmente durante e depois de sua passagem pela Presidência da República, deixou episódios que precisam permanecer no centro do debate público. Não se trata de criminalizar opiniões conservadoras, desqualificar eleitores ou impedir a existência de uma oposição. Trata-se de avaliar fatos, decisões judiciais e comportamentos políticos que levantaram questionamentos graves sobre o compromisso de lideranças bolsonaristas com as regras do jogo democrático.

O 8 de janeiro não pode ser esquecido

Em 8 de janeiro de 2023, apoiadores radicalizados do então ex-presidente invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. O Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal foram atacados em uma tentativa violenta de confrontar a ordem institucional estabelecida pelo resultado das eleições de 2022.

As imagens da destruição expuseram a gravidade de uma mobilização que ultrapassou os limites da manifestação política legítima. Protestar, criticar governos e defender mudanças são direitos fundamentais. Invadir prédios públicos, destruir patrimônio e tentar impor uma ruptura institucional são atos de outra natureza.

A responsabilização dos envolvidos não foi uma interpretação exclusiva de adversários políticos. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro e outros integrantes do núcleo central da trama golpista. Em novembro daquele ano, o STF determinou o início do cumprimento das penas após o encerramento dos recursos cabíveis naquele momento.

A gravidade do episódio está justamente em seu significado institucional: a alternância de poder, fundamento de qualquer democracia, não pode depender da aceitação pessoal do resultado por quem perde uma eleição.

É necessário distinguir os participantes dos atos de 8 de janeiro das milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro ou que se identificam com pautas conservadoras. Não há responsabilidade coletiva automática por preferência eleitoral. Há, porém, uma obrigação de cobrar de qualquer liderança política uma posição inequívoca em defesa da Constituição e contra tentativas de derrubar governos legitimamente eleitos.

Desacreditar as urnas sem provas tem consequências

Antes mesmo da eleição de 2022, Bolsonaro usou a estrutura da Presidência da República para lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

Em julho daquele ano, convocou embaixadores estrangeiros para uma reunião no Palácio da Alvorada, transmitida publicamente, na qual questionou a confiabilidade das urnas eletrônicas sem apresentar provas capazes de sustentar as acusações. O Tribunal Superior Eleitoral considerou a conduta abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação e declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2022.

A decisão foi tomada por maioria de cinco votos a dois. Portanto, é importante registrar tanto o fundamento jurídico da sanção quanto o resultado do julgamento, sem ocultar a divergência entre os ministros.

O problema democrático não está em discutir possíveis aperfeiçoamentos eleitorais. Sistemas públicos podem e devem ser fiscalizados. O problema surge quando autoridades usam o prestígio do cargo para difundir suspeitas sem provas, corroer a confiança pública e criar um ambiente no qual a derrota eleitoral passa a ser tratada como evidência de fraude.

A democracia depende da possibilidade de fiscalização, mas também da disposição de aceitar evidências e respeitar os procedimentos institucionais. Questionar é legítimo; transformar alegações infundadas em justificativa para uma ruptura é outra coisa.

Tarifas americanas e o interesse nacional

A atuação da família Bolsonaro junto ao governo dos Estados Unidos acrescentou uma dimensão internacional a esse debate.

Em 2025 e 2026, integrantes da família Bolsonaro mantiveram articulações políticas com o governo de Donald Trump em meio às tensões comerciais entre os dois países. Flávio Bolsonaro (PL), senador e integrante da família do ex-presidente, esteve em Washington com Eduardo Bolsonaro e aliados, em uma agenda que envolveu temas como tarifas e relações bilaterais. Reportagens também registraram a pressão política exercida por integrantes da família junto ao governo americano.

Em julho de 2025, Trump anunciou tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, em meio a uma crise que misturou comércio, política externa e questionamentos americanos sobre processos judiciais no Brasil. Em 2026, novas medidas tarifárias voltaram a afetar exportações brasileiras. A extensão das tarifas e seus efeitos variaram conforme os produtos e as decisões posteriores.

É preciso ser rigoroso: a imposição das tarifas foi uma decisão do governo dos Estados Unidos, e a responsabilidade direta por essa decisão é americana. A existência de articulações políticas de brasileiros com autoridades estrangeiras não significa, por si só, que esses brasileiros tenham determinado a medida. A contribuição de cada agente para o resultado deve ser avaliada com base em documentos, declarações e evidências verificáveis.

Ainda assim, cabe uma pergunta legítima à sociedade: qual deve ser o limite da articulação política internacional quando medidas de outro país prejudicam setores produtivos brasileiros, trabalhadores, empresas e exportadores?

A política externa pode envolver divergências e alianças ideológicas. Mas o interesse nacional não deveria ser subordinado a projetos pessoais, disputas eleitorais ou tentativas de obter vantagens políticas domésticas. Defender o Brasil significa negociar com outros governos sem abrir mão da autonomia nacional e sem tratar prejuízos econômicos ao próprio país como instrumentos de disputa interna.

A crítica deve valer para qualquer partido ou governante. Soberania não é uma bandeira que se ergue apenas quando convém.

Flávio Bolsonaro e a continuidade de um projeto político

Flávio Bolsonaro representa uma das principais figuras políticas do campo bolsonarista. Sua atuação deve ser examinada a partir de suas próprias declarações, propostas e decisões, sem atribuir a ele automaticamente todos os atos praticados por seu pai.

Ao mesmo tempo, a continuidade de um projeto político exige questionamentos públicos. Se uma liderança pretende ocupar a Presidência da República, precisa esclarecer sua posição diante dos ataques às instituições, da tentativa de ruptura de 2023 e das articulações internacionais que envolveram pressões comerciais contra o Brasil.

A população tem o direito de saber se seus representantes consideram inaceitável qualquer tentativa de impedir a posse de um adversário eleito, se respeitarão decisões judiciais mesmo quando desfavoráveis e se defenderão a independência do país nas relações internacionais.

Essas perguntas não são perseguição política. São exigências compatíveis com a dimensão do cargo pretendido.

O mesmo critério deve ser aplicado a Lula, ao PT, ao PL e a qualquer outra força política. Nenhum partido tem propriedade sobre a democracia, e nenhum governante deve receber um cheque em branco.

A democracia exige mais do que eleições

A experiência brasileira demonstra que instituições democráticas podem ser ameaçadas também por dentro. O uso político da máquina pública, os ataques à imprensa, a deslegitimação sistemática de órgãos de fiscalização, a disseminação deliberada de desinformação e a tolerância com a violência política podem enfraquecer a confiança pública mesmo quando não produzem, imediatamente, uma ruptura institucional.

Isso não significa que toda crítica ao Judiciário seja antidemocrática, que toda notícia falsa configure um crime ou que toda medida de um governo conservador seja autoritária. A liberdade de expressão, a oposição e o debate público são componentes indispensáveis de uma sociedade plural.

A linha divisória está no respeito às regras constitucionais, aos direitos fundamentais e à legitimidade dos adversários. Uma liderança democrática pode perder uma eleição, criticar um tribunal, contestar uma política pública e organizar protestos. O que não pode fazer é reivindicar para si o direito de anular a vontade popular por meio da força ou de ameaças.

O Brasil precisa de uma direita democrática, de uma esquerda democrática e de instituições capazes de controlar os abusos de qualquer governo. O que não pode ser normalizado é a transformação da intolerância, da violência política e da desconfiança sem provas em métodos permanentes de atuação.

Lula e o compromisso com as regras democráticas

Luiz Inácio Lula da Silva tem uma trajetória política que inclui derrotas eleitorais, vitórias, oposição e retorno à Presidência pelo voto. Em 2022, venceu a eleição presidencial e tomou posse em janeiro de 2023, após uma transição marcada por forte polarização.

Na cerimônia de diplomação, em dezembro de 2022, Lula defendeu publicamente a democracia, a soberania do voto popular e o papel das instituições eleitorais. O discurso, por si só, não encerra a avaliação de sua trajetória, mas documenta o compromisso que ele declarou assumir diante do país.

A avaliação democrática de Lula também deve considerar seu exercício do poder, o respeito aos limites constitucionais, as relações com o Congresso, a liberdade de imprensa e a atuação dos órgãos de controle. Compromissos declarados precisam ser confrontados continuamente com decisões concretas, como deve ocorrer com qualquer presidente.

A defesa da democracia não pode depender da idealização de um político. Nenhum governante está acima de críticas, e nenhum partido deve ser dispensado de prestar contas à sociedade.

O ponto central é que o Brasil precisa preservar a alternância de poder, a independência institucional, o respeito aos resultados eleitorais e a liberdade de organização política. Qualquer candidatura que reivindique representar o país deve demonstrar, por suas atitudes, que aceita essas condições.

O Brasil não pode tratar a ruptura como uma opção comum

O bolsonarismo é um movimento amplo e heterogêneo, mas os episódios associados à liderança de Jair Bolsonaro (incluindo os ataques infundados ao sistema eleitoral, as sanções impostas pelo TSE e a condenação criminal no processo sobre a tentativa de golpe ) impõem um exame rigoroso de seu compromisso com a democracia.

Não é necessário proibir uma corrente política para rejeitar práticas autoritárias. É necessário exigir transparência, responsabilização e respeito às regras constitucionais. É necessário também impedir que a violência política seja relativizada conforme a identidade partidária de seus autores.

O futuro democrático do Brasil não deve ser decidido pelo medo, pela desinformação ou pela fidelidade incondicional a qualquer líder. Deve ser decidido por cidadãos informados, capazes de comparar programas, avaliar históricos e cobrar compromissos verificáveis.

A eleição de um presidente não encerra a democracia: inaugura mais um período de responsabilidade pública. Por isso, a defesa das instituições precisa continuar antes, durante e depois das urnas.

O recado deve ser inequívoco para Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Lula e todos os demais representantes políticos: o poder pertence ao povo, a Constituição está acima dos governantes e nenhum projeto pessoal pode justificar a destruição das regras que garantem a liberdade de todos.

A democracia brasileira não pode ser tratada como um instrumento descartável quando o resultado das urnas desagrada a quem deseja governar.

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