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Cultura & Sociedade, Saúde

Setembro Amarelo: falar sobre saúde mental é necessário durante todo o ano

Por Isabela Schuchter
Publicado em 11/09/2026
às 15:26

Campanha de valorização da vida reforça a importância da prevenção, da escuta e da busca por ajuda profissional; em Minas Gerais, taxa de suicídio chegou a 9,23 mortes por 100 mil habitantes em 2023

Setembro é marcado pelo Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio. A mobilização busca ampliar o debate sobre o tema e incentivar a procura por ajuda, mas, o cuidado não deve ficar restrito ao mês de setembro.

Em Minas Gerais, os dados mostram que o assunto merece atenção. Segundo levantamento do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), a taxa de mortalidade por suicídio no estado passou de 7,37 para 9,23 óbitos por 100 mil habitantes entre 2018 e 2023, um crescimento de 25%. O relatório, publicado em setembro de 2025, aponta ainda que os homens representaram a maior parte das mortes em todos os anos analisados. 

Embora a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais já disponibilize uma base de mortalidade atualizada, com registros de 2024 a 2026, a própria plataforma alerta que os dados mais recentes estão sujeitos a alterações e revisões. 

A procura por atendimento psicológico mudou

Para o psicólogo clínico Henrique Sobrinho Hendges, 29 anos, que atua pela Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o perfil de quem procura atendimento psicológico também vem passando por mudanças.

Segundo ele, embora as mulheres ainda sejam maioria entre os pacientes, a procura por terapia tem aumentado entre homens e jovens. O atendimento on-line também ampliou o acesso ao acompanhamento psicológico, especialmente para pessoas que vivem em cidades menores ou regiões mais distantes.

Outra mudança apontada pelo profissional é o motivo que leva as pessoas ao consultório. A busca por atendimento não acontece apenas em momentos de crise. “As pessoas estão buscando ajuda não só em momentos de crise, mas também para prevenção e acompanhamento”, explica Henrique.

Entre as demandas mais frequentes, o psicólogo destaca ansiedade e depressão, especialmente entre os jovens. Também aparecem questões relacionadas à saúde mental no trabalho, problemas de relacionamento, violência doméstica, impactos do excesso de redes sociais e acompanhamento de condições como TDAH e autismo.

Para o psicólogo, muitas pessoas chegam à terapia se sentindo confusas, perdidas ou inadequadas, como se não conseguissem se encaixar no ambiente em que vivem. Nesse contexto, a psicoterapia também pode ser utilizada como espaço de autoconhecimento e reorganização da vida.

Os sinais nem sempre são visíveis

Um dos desafios da prevenção é perceber quando alguém próximo está enfrentando sofrimento emocional. De acordo com Henrique, não é possível avaliar o estado emocional de uma pessoa apenas pela aparência.

Uma pessoa pode estar sorrindo e, mesmo assim, estar sofrendo”, afirma.

Entre os sinais que podem indicar que algo não vai bem estão a perda de interesse por atividades que antes davam prazer, apatia, falta de energia, alterações no sono, agitação e mudanças na maneira de falar.

O psicólogo também chama atenção para manifestações de desesperança, cansaço extremo ou falas que indiquem que a pessoa não está conseguindo lidar com o que está vivendo.

A identificação precoce pode facilitar a busca por ajuda e evitar que o sofrimento se agrave.

Como familiares e amigos podem ajudar

Quando uma pessoa próxima demonstra sofrimento emocional intenso, a orientação é evitar julgamentos, cobranças ou frases que diminuam aquilo que ela está sentindo. “O primeiro passo é não julgar e não pressionar”, pondera Henrique.

Segundo o psicólogo, é importante perguntar o que está acontecendo, o que a pessoa precisa e de que forma é possível ajudar. O apoio profissional também pode ser oferecido, mas sem transformar a conversa em uma cobrança.

Em situações de crise, é importante procurar atendimento de saúde imediatamente. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece atendimento pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas por dia.

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza

O estigma ainda faz com que muitas pessoas adiem a procura por atendimento psicológico. Para o psicólogo, uma das formas de combater esse problema é mudar a ideia de que terapia é destinada apenas a quem está enfrentando um transtorno ou uma situação extrema. “A terapia é para quem quer mudar, para quem cansou de viver de determinado jeito e precisa de ajuda para reorganizar a própria vida”.

“Você não precisa enfrentar tudo sozinho. Existe um profissional preparado para dividir esse peso com você”, completa. A terapia também não precisa ser encarada como uma decisão definitiva. Segundo Henrique, uma pessoa que tem dúvidas pode iniciar o acompanhamento, conhecer o processo e avaliar se aquele profissional e aquela abordagem fazem sentido para suas necessidades.

Cuidar da saúde mental o ano inteiro

Para Henrique, a principal mensagem do Setembro Amarelo não deveria terminar quando setembro chegar ao fim. “As pessoas precisam de ajuda o ano inteiro, não só durante uma campanha”.

Ele compara a prevenção em saúde mental aos cuidados adotados para evitar outras doenças. Para ele, não basta agir somente quando o problema já está instalado. “Quanto mais cedo e de forma mais estruturada a gente trabalhar prevenção e cuidado, melhor fica a qualidade de vida das pessoas e mais eficazes são os tratamentos”, destaca.

Além do atendimento psicológico, família, escola, trabalho e serviços de saúde também podem participar desse processo.

Cada ambiente possui uma responsabilidade diferente: a família oferece apoio e proteção; a escola pode ajudar na prevenção e identificação de mudanças; o ambiente de trabalho pode contribuir para a saúde ou se tornar fonte de sofrimento; e os serviços de saúde são responsáveis pelo atendimento e acompanhamento dos casos. “Quando família, escola, trabalho e saúde conversam e se coordenam, o cuidado deixa de ser só individual e se torna uma responsabilidade coletiva”, afirma Henrique.

Onde buscar ajuda

A procura por ajuda profissional pode ser um passo importante para quem está enfrentando sofrimento emocional. Em situações de crise, é necessário buscar atendimento de urgência em um serviço de saúde.

O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Mais do que uma campanha de setembro, a valorização da vida envolve manter uma rede de cuidado durante todo o ano: ouvir sem julgamentos, perceber mudanças de comportamento, conversar sobre saúde mental e facilitar o acesso à ajuda profissional.

Sobre Isabela Schuchter

Isabela Schuchter, repórter do JF Diário, é apaixonada por política, moda e pelas histórias que movimentam o mundo. Acredita no jornalismo como uma forma de informar, conectar pessoas e dar novos olhares aos acontecimentos.

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